domingo, 8 de maio de 2016

JIVM - CONCERTO PARA CAVALOS

SÁBADO, 16 DE ABRIL DE 2016

JIVM - CONCERTO PARA CAVALOS


CONCERTO PARA CAVALOS
Poema de José Inácio Vieira de Melo
Do livro "Sete" (Editora 7Letras, 2015)

Direção: Gabriel Gomes
Direção de fotografia: Edson Silva
Ilustrações: Hallina Beltrão
Trilha: Thiago Amud
Edição: Antonio Junior
Áudio: Herus Passos
Assistente: Luís Galvão
Poeta: José Inácio Vieira de Melo
Realização: Luzeiro Filmes

sábado, 7 de maio de 2016

COMPORTAMENTO em Aristóteles

COMPORTAMENTO em Aristóteles
"A humanidade em massa se assemelha totalmente aos escravos, preferindo uma vida comparável à dos animais" (Aristóteles).
 
Página de Educação e Comportâmento
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)


Aristóteles diz coisas sobre a qualidade moral das ações humanas o bastante para extrairmos dele uma teoria do comportamento, apesar do próprio filósofo não haver apresentado suas idéias sob essa forma.
No primeiro livro da Ética a Nicômaco, Aristóteles se pergunta qual o bem cuja busca é a motivação fundamental do comportamento humano. Apesar de filósofo, ele não parte de deduções filosóficas, mas da opinião que as pessoas têm sobre qual a finalidade que as atrai naquilo que fazem. E revela: "Em palavras, o acordo quanto a este ponto é quase geral; tanto a maioria dos homens quanto as pessoas mais qualificadas dizem que este bem supremo é a felicidade, e consideram que viver bem e ir bem (ser bem sucedido) equivale a ser feliz" (Et. a Nic., Cp. I, 4, 1095 a; o parênteses é nosso.
O que será, então, para essas pessoas mais qualificadas, viver bem ou "ir bem"? Diz Aristóteles, dos indivíduos mais qualificados, que estes "parecem perseguir as honrarias com vistas ao reconhecimento de seus méritos; ao menos eles procuram ser honrados por pessoas de discernimento, e entre aquelas que os conhecem, e com fundamento em sua própria excelência (Et. a Nic., Cp. I, 5, 1096 a). E mais adiante: "Na realidade, são nossas atividades conformes à excelência que nos levam à felicidade, e as atividades contrárias nos levam à situação oposta" (idem, 10, 1100 a/b. Vide também neste Site Maturidade).
Passemos ao De Anima, Livros I, II e III. Este é um tratado referente às funções da alma. Para Aristóteles, a alma mais simples é própria dos vegetais. Ela é fundamentalmente "vegetativa", no sentido de que suas funções principais são a nutritiva e a reprodutiva. Mas é nos animais dotados de movimento que estas funções se traduzem em comportamentos.
Os animais têm na alma faculdades outras além daquelas próprias da alma vegetativa, pois se movimentam e buscam objetos que desejam, ou fogem do que lhes assusta. Possuem almas sensitivas que somam funções da alma vegetativa às funções que lhes são próprias, como animais, e que não existem nos vegetais. Entre as ocupações que se vinculam à alma sensitiva dos animais está a busca do prazer. Mas, a alma humana é a mais completa de todas, e assim sendo, além das funções que encontramos nas almas dos vegetais e dos animais, tem mais uma outra, que é a função da racionalidade, de modo que o seu comportamento mais próprio e mais excelente seria aquele governado por essa última e mais alta função. Porém, diz Aristóteles, incisivamente: "A humanidade em massa se assemelha totalmente aos escravos, preferindo uma vida comparável à dos animais".
Podemos, do que foi dito, concluir que o homem busca ser feliz, seja tanto diretamente no contacto e na posse de objetos de prazer, quanto por via transacional, em que recebe do outro o reconhecimento de sua excelência pessoal. No primeiro caso, busca a posse direta de objetos da sensualidade, na satisfação de necessidades vitais, incluído o objeto sexual, porém segundo uma conveniência racional. No segundo caso, podemos aproveitar a referência clara de Aristóteles às pessoas que procuram ser reconhecidas por seus méritos. E é fácil verificar que o homem também pode sentir-se feliz por estar bem, quando é ele próprio que se reconhece, ao buscar algo com que se premiar. Esse é um comportamento objetivo, no sentido de que lida com objetos, e que existem objetos com valor em si mesmos que podem ser buscados e consumidos no viver bem e no ser feliz de uma pessoa, sem envolvimento de alguém mais.
Há, portanto, um comportamento que é objetivo e outro que é transacional, e apesar de que possam ocorrer juntos em uma mesma emoção, o primeiro envolve sensações e o segundo envolve sentimentos em relação a si mesmo ou a pessoas.
Estamos, ainda, obrigados a reconhecer que os comportamentos de quaisquer das categorias acima, poderão, por sua vez, serativos, enquanto o indivíduo busca o objeto de seu desejo, ou passivos, enquanto recebe e usufrui o objeto conquistado ou com o qual eventualmente é presenteado, pois o homem pode ser reconhecido e louvado sem procurar por isso, apenas por obedecer a um ideal, e pode receber um objeto cuja posse o deixa feliz, sem ter buscado por ele.
Poderíamos chamar os comportamentos voltados para os objetivos mais primários de nutrição, defesa, ataque, e reproduçãoComportamentos apetitivos-impulsivos. Pode-se dizer então que as funções vegetativas e sensitivas correspondem ao elemento irracional da alma humana. Porém, Aristóteles se apressa em esclarecer que esse elemento irracional, conquanto gere seus próprios comportamentos, pode também subordinar-se, em parte, à razão. É quando ele diz: "Seja como for, não devemos duvidar de que haja na alma um elemento além da razão (o elemento irracional), resistindo e opondo-se a ela" (a razão)..."Mas mesmo este elemento (que se opõe à razão) parece participar da razão, como dissemos; de qualquer forma, nas pessoas dotadas de continência ele obedece à razão, e presumivelmente ele é ainda mais obediente nas pessoas moderadas e valorosas, pois nestas ele fala, em todos os casos, em uníssono com a razão" (Et. a Nic., 1, 13, 1102, b).
Temos portanto uma nova categoria de comportamentos, quando a razão não fornece nenhum outro objetivo além daqueles objetos de prazer, porém se aplica em que sejam conseguidos de modo prudente, eficaz e seguro, e sobretudo leva ao seu acúmulo. Depois de Aristóteles viria a escola epicurista que, justamente, aplica a razão na busca do prazer. Comportamentos desse grupo seriam Comportamentos apetitivos-racionais.
Assim, Aristóteles dividiu o elemento irracional em dois, vegetativo (que aqui chamamos "apetitivo impulsivo") e apetitivo (que chamamos "apetitivo racional"), um puramente impulsivo e o outro associado à razão. Porém, Aristóteles ressalta que a razão não se limita a esta ação intelectual de governo do apetite, mas é capaz de articular o pensamento moral.
Vimos acima que para Aristóteles, são nossas atividades conformes à excelência que nos levam à felicidade. Consequentemente, destas duas categorias diferentes de ação da razão, aquela que dirige o comportamento apetitivo e pode conduzi-lo inteligentemente para o prazer intelectual, e aquela que pode modera-lo com vistas a um outro nível de valores, os valores morais -, resultam duas formas de excelência racional: a excelência intelectual e a excelência moral. É exatamente o que o filósofo diz logo adiante: "A excelência também se diferencia em duas espécies, de acordo com esta subdivisão, pois dizemos que certas formas de excelência são intelectuais e outras são morais (a sabedoria, inteligência e o discernimento, por exemplo, são formas de excelência intelectual, e a liberalidade e a moderação, por exemplo, são formas de excelência moral)" (Et. a Nic., idem, 1103a). São o que chamaríamos comportamentos meta-apetivos.
EXEMPLOS:
A combinação em categorias, classes e modalidades dos vários tipos de comportamento dedutíveis da exposição contida no Livro I da Ética a Nicômaco, de Aristóteles, nos dá 2 grupos, 3 categorias, cada uma com a respectiva classe transacional ou objetiva, totalizando 6 classes, e cada uma dessas classes com sua modalidade ativa e passiva, em um total de 12 modalidades, como abaixo:
Exemplos:
A - Grupo de comportamentos instintivos
I - Categoria dos apetitivos impulsivos
1. Modalidade dos apetitivos impulsivos, objetivos, ativos. Toda essa classe de comportamentos objetivos tem seu motivo fundado em sensações, e visa objetos físicos causadores de prazer, de modo desregrado: busca e posse direta de objetos da sensualidade na satisfação de necessidades vitais, incluído o objeto sexual. Busca indiscriminada de objetos substitutos dos alvos naturais de prazer, fumar, beber bebidas alcoólicas, usar drogas, etc.
2. Modalidade dos apetitivos impulsivos, objetivos, passivos: aceitação, troca ou compra de carícias, entregar-se ao sono ou ao descanso
3. Modalidade dos apetitivos impulsivos transacionais, ativos. Os comportamentos irracionais da classe transacional são fundados em sentimentos do indivíduo em relação a si mesmo ou aos outros: ações ditadas por orgulho, vaidade; defesa de exclusividade e propriedade, exercício desregrado do poder, submeter ou derrotar o outro; sadismo; castigo, vitória, vingança, assassinato, roubo e furto, afeição e gratidão naturais.
São palavras de Maquiavel que em certas circunstâncias as ações levadas a efeito impulsivamente, têm mais probabilidades de resultarem em ganho que as ações racionalmente preparadas: "Estou convencido de que é melhor ser impetuoso do que circunspeto, porque a sorte é mulher e, para dominá-la, é preciso bater-lhe e contrariá-la. E é geralmente reconhecido que ela se deixa dominar mais por estes do que por aqueles que procedem friamente. A sorte, como mulher, é sempre amiga dos jovens porque são menos circunspectos, mais ferozes e com maior audácia a dominam" (Maquiavel, ed. 1948, p.131-132).
4. Modalidade dos apetitivos impulsivos, transacionais, passivos: receber ajuda, socorro; renúncia, fuga. Ser sustentado, valer-se da sedução, conceder-se o ócio; viver sem compromissos, ser servido.
B - Grupo de comportamentos racionais
II - Categoria dos apetitivos racionais
5. Modalidade dos apetitivos racionais, objetivos, ativos. Comportamentos influenciados pela razão, no sentido de eficiência em relação aos seus objetivos. Motivo fundado em sensações, visa objetos de prazer, porém de modo comedido, a bem do próprio prazer. São comportamentos segundo a máxima do epicurismo: comer e beber balanceadamente, observar regimes alimentares, selecionar e degustar, etc.
6. Modalidade dos apetitivos racionais, objetivos, passivos: música, concertos, televisão, leituras, massagens, etc.
7. Modalidade dos apetitivos racionais, transacionais, ativos: atividades astuciosas, disfarces, maquiavelismo, aplicação esmerada na destruição do inimigo, estratégia de guerra, articulação criadora ou destruidora. Racismo; esforço por um prêmio; derrotar o outro de modo astucioso; jogos e competições esportivas.
Em seus célebres conselhos aos governantes, Maquiavel ressalta que, apesar de que seja louvável a um príncipe viver com integridade, contudo, os príncipes que souberam, pela astúcia, transtornar a cabeça dos homens, chegaram a muito melhor resultado administrativo que o obtido pelos príncipes que foram leais. Diz, no capítulo XVIII:
"Deveis saber, portanto, que existem duas formas de se combater: uma, pelas leis, outra, pela força. A primeira é própria do homem; a segunda, dos animais. Como, porém, muitas vezes, a primeira não seja suficiente, é preciso recorrer à segunda. Ao príncipe toma-se necessário, porém, saber empregar convenientemente o animal e o homem. Isto foi ensinado à socapa aos príncipes, pelos antigos escritores, que relatam o que aconteceu com Aquiles e outros príncipes antigos, entregues aos cuidados do centauro Quiron, que os educou. É que isso (ter um preceptor metade animal e metade homem) significa que o príncipe sabe empregar uma e outra natureza".
...
"Sendo, portanto, um príncipe obrigado a bem servir-se da natureza da besta, deve dela tirar as qualidades da raposa e do leão"
...
"Precisa, pois, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos".
...
"Mas é necessário disfarçar muito bem esta qualidade e ser bom simulador e dissimulador. E tão simples são os homens, e obedecem tanto às necessidades presentes, que aquele que engana, sempre encontrará quem se deixe enganar". ..."por exemplo: de um lado, parecer a ser efetivamente piedoso, fiel, humano, integro, religioso, e de outro, ter o ânimo de, sendo obrigado pelas circunstâncias a não o ser, tornar-se o contrário".
...
"Todos vêem o que tu pareces, mas poucos, o que és realmente, e estes poucos não têm a audácia de contrariar a opinião dos que têm por si a majestade do Estado" (Maquiavel, ed. 1948, p.94-97).
8. Modalidade dos apetitivos racionais, transacionais, passivos: receber reconhecimento e aclamação receber provas de submissão a ordens, o ato de aceitação de poder ilegítimo que lhe seja conferido ou consideração decorrente de temor; reconhecimento recebido dos que o temem em decorrência de poder político ou poder econômico. Auto elogio, que Erasmoaconselha, pela boca da Loucura: "De fato, que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores? Quem poderá pintar-me com mais fidelidade do que eu mesma?"... "Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo". (Erasmo, ed. s/d., p.15)
O escritor e filósofo alemão Nietzsche considera justo o comportamento ditado pelo egoísmo e diz: "Arriscando desagradar a ouvidos inocentes, eu digo que o egoísmo pertence à essência de uma alma nobre, quero dizer a crença inabalável de que a um ser como "nós", os outros seres devem estar naturalmente sujeitos, e têm que se sacrificar. A alma nobre aceita o fato do seu egoísmo inquestionavelmente, e também sem consciência de rudeza, constrangimento ou arbitrariedade nesse particular, porém mais como alguma coisa que pode ter suas bases na lei primitiva das coisas - se ela procurasse uma designação para isso haveria de dizer "É a própria justiça". (Nietzsche, 1997, § 265)
III. Categoria dos meta-apetitivos
9. Modalidade dos meta-apetitivos objetivos e ativos. Comportamentos motivados por interesse social e moral. Comportamento polido, "civilizado"; consciência e controle do comportamento impulsivo e apetitivo racional segundo prescrições de uma crítica moral: contrariar impulsos em relação a objetos de prazer; jejuar, criar símbolos, imagens, etc.
10. Modalidade dos meta-apetitivos objetivos e passivos: sofrer prova de resistência relativa a um ideal; assumir riscos.
11. Modalidade dos meta-apetitivos transacionais, ativos: ação e reação dirigida sobre pessoas ou no interesse de pessoas com a preocupação de justiça e honradez: campanhas, movimentos, obras assistenciais, arriscar a vida pelo outro.
12. Modalidade dos meta-apetitivos transacionais, passivos: aceitar ser objeto de reconhecimento numa medida justa.
Rubem Queiroz Cobra
Aberta em 02/09/1998

SCHOPENHAUER

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Época, vida e obras de Arthur Schopenhauer - II
Página de Filosofia Contemporânea
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)
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PENSAMENTO
Platão e Kant. Schopenhauer assume a doutrina de Platão de que os objetos do mundo não eram mais que aparências, meras sombras das coisas verdadeiras, as quais o homem não podia conhecer neste mundo, feito todo ele de representações imperfeitas. Para Platão as coisas perfeitas e absolutas existiam no mundo das idéias, onde as almas, antes de se encarnarem nos corpos, puderam vislumbrá-las. No mundo das idéias existe a beleza total e completa, mas coisas belas do mundo eram belezas incompletas, eram apenas representações imperfeitas da verdadeira beleza, que estava fora do alcance e da compreensão do homem. No entanto Schopenhauer pondera que existe uma coisa absoluta que o homem conhece totalmente: a vontade.
Analisando minuciosamente também a Kant, Schopenhauer objeta que a Vontade também escapa à sua doutrina. Também Kant havia dito que conhecemos os fenômenos que nos revelam as coisas mas não as conhecemos em si mesmas, totalmente. Disse que nosso conhecimento está preso a certas fórmulas de apreensão da realidade e que só podemos elaborar o conhecimento de modo limitado segundo quatro grupos de formas ou de categorias de intuição: o de quantidade, o de qualidade, o de relação e o de modalidade. Esses grupos de categorias totalizam doze categorias, entre elas, por exemplo, a de pluralidade, ou seja, a percepção de que uma coisa é única ou múltipla, dentro do grupo das categorias de quantidade. Assim também se dá com a categoria decausalidade, uma forma de relação, segundo a qual nós podemos dizer que uma coisa é a causa de uma outra, não apenas porque vemos uma sucessão de eventos, mas porque também somos capazes de conceber uma vinculação de causa e efeito.
Kant disse mais que, primeiramente, tudo que sabemos são coisas que se sucedem no tempo e se distribuem no espaço. Espaço e tempo precede, portanto, as 12 categorias, uma vez que não sabemos de nada que não esteja no espaço, real ou imaginário, ou que não esteja no tempo. A aquilo que podemos conhecer Kant deu o nome de fenômeno, e para o que existe sem que possamos conhecer, deu o nome de nôumeno que significa, a coisa não aparente, incognoscível, que se costuma dizer também que é "a coisa em si".
Em sua crítica a Kant Schopenhauer diz que existem coisas que conhecemos sem nos valermos de qualquer das 12 categorias, e que também não dependem do tempo e do espaço: a consciência e a vontade.
A Vontade. Para descobrir a "coisa em si", Schopenhauer voltou sua atenção para o próprio homem, que também é uma coisa no universo. É verdade que o homem somente pode conhecer seu corpo como fenômeno, como aparência, segundo o tempo e o espaço e as categorias. Porém, voltando-se para o seu interior, já não precisa de tempo nem de espaço para sua consciência. Esta é atemporal e pontual. A vontade, por sua vez, representa o querer viver, é o querer realizar-se. A vontade é uma coisa em si mesma, irredutível a qualquer outra coisa, sem causa, independente do tempo e do espaço, e das categorias.
A vontade não se desloca e se extingue passando da coisa desejada para a coisa conquistada, a vontade quer sempre, é avassaladora, é sem sentido. Toda a vida é sofrimento porque é um constante querer eternamente insatisfeito, que leva ao amor, ao ódio, ao desejo ou à rejeição. Para Schopenhauer a Vontade estava presente no mundo como se fosse a própria alma do universo, e era a força total pela qual o mundo existia e se movia. Ele fez da vontade um ser à parte, que se manifestava em toda a natureza como o substrato de todas as coisas. A vida é a manifestação da vontade. Schopenhauer considera como materialização, realização em força ou materialização da vontade, todas as forças e objetos da natureza como a gravidade, o magnetismo, os instintos animais, as forças de reação química, etc.
Schopenhauer elimina Deus, e em seu lugar coloca uma "vontade universal" que é a força voraz e indomável da própria natureza. A vontade aqui nada tem a ver com a decisão racional por uma opção de agir, mas trata-se de um ser absoluto, essência primeira, a coisa em si, o noumeno, que é irredutível e gera todas as coisas deste mundo, Essa fome insaciável da Vontade faz o mundo anárquico e cruel. Essa vontade, que é também um substrato, a coisa em si, no homem, é responsável pelos seus apetites incontroláveis. Ao final o homem encontra a morte, o golpe fatal que recebe a vontade de viver, como se lhe fizesse a pergunta: Você já teve o bastante?
Ética Não contem a noção de dever mas a noção de renúncia. Schopenhauer propõe uma santidade cristã que é mio caminho para o nirvana hindu. No homem a vontade é algo de que ele tem consciência como vontade de viver e ao mesmo tempo consciência de permanente insatisfação com o que ele é (segundo conhecimento, depois do conhecimento da vontade, é o da sua insatisfação) com o que faz, de modo que a única salvação é a superação da vontade de viver.A única salvação definitiva é a superação da vontade de viver. Para anular a vontade: a renúncia, como fazem os santos, e o nirvana da filosofia hindu (budismo e bramanismo) A vontade é constante dor. Isto faz que a filosofia de Schopenhauer seja um rigoroso pessimismo.
Ciência. A incursão que Schopenhauer fez na ciência foi tão desastrada quanto a de Goethe, seu mentor em Weimar. Schopenhauer não aceitou a teoria das ondas de luz e a nova física da eletricidade desenvolvida por Thomas Young (1773-1829) e Michael Faraday (1791-1867. Preferiu a teoria das cores formulada por Goethe, com cuja ajuda havia escrito o "Sobre a visão e as cores", de 1816, baseado no Zur Farbenlehre ("Teoria das cores" - 1810) escrito pelo poeta, que ignorou os achados pioneiros da ciência de sua época nessa área, notadamente as descobertas de Newton. Era também adepto da teoria da geração expontânea dos seres, que Pasteur viria de destruir pouco depois.
Ao dar a Vontade como propulsora da evolução dos corpos, Schopenhauer pareceu a muitos um seguidor da Teoria da Evolução na linha do pensamento de Lamarck. Porém, Schopenhauer concebe a Vontade em seu sistema como algo sem nenhuma meta ou finalidade, um querer irracional e inconsciente, cujo único móvel é meramente o de se impor de alguma forma e se perpetuar.
Psicanálise. A visão pessimista que Schopenhauer tem do mundo influenciou vários filósofos depois dele, notadamente Sartre. A sua influência mais forte deu-se, porém, sobre Nietzsche, Freud, e o compositor Richard Wagner.
Die Welt als Wille and Vorstellung ("O Mundo como vontade e representação") revela que um grande número dos postulados mais característicos em Freud foram pensados por Schopenhauer. E o mais importante, Schopenhauer articula a maior parte da teoria freudiana da sexualidade. Na psicanálise de Freud se pode encontrar um espelho da própria doutrina da Vontade de Schopenhauer. Sua teoria dos apetites inspirou a Freud sua teoria dos instintos e de que o sexo é essa vontade soberana. Alguns críticos de Freud chegam a dizer que este não fez muito mais que desenvolver na Psicanálise as idéias de Schopenhauer, a começar pela sua teoria dos instintos os quais correspondem perfeitamente à vontade opressora que dirige as ações do homem, e de modo total, não apenas no instinto sexual (eros) como também no instinto de morte (tanatus).
O conceito de "Vontade" de Schopenhauer contem também os fundamentos do que viriam a ser os conceitos de "inconsciente" e "Id" da doutrina freudiana. A vontade como coisa absoluta e auto-suficiente, tem ela própria "desejos". Quando se manifesta na forma de uma criatura ela busca se perpetuar por via dos meios de reprodução dessa criatura. Por isso o sexo é básico para a vontade perpetuar a si própria, diz Schopenhauer no volume II do Die Welt. Resulta que "o impulso sexual é o mais veemente de todos os apetites, o desejo dos desejos, a concentração de toda nossa vontade".
O que Schopenhaur escreveu sobre a loucura antecipou a teoria da "repressão" e a concepção da etiologia das neuroses na teoria da Psicanálise de Freud. A psicologia em Schopenhauer também contem aspectos do que veio a ser a teoria fundamental do método da livre associação de idéias, utilizado por Freud..
Quando Freud fez seus estudos pré-universitários e universitários, entre 1865 e 1875 Schopenhauer estava na crista de sua fama, e era virtualmente o filósofo do mundo de língua alemã. Mas, se Freud não retirou diretamente de Scopenhauer as suas idéias, pode te-lo feito através da leitura de Brentano. Freud foi seu aluno à época em que Brentano publicou o seu Psychologie vom empirischen Standpunkte ("A Psicologia de um ponto de vista empírico") no qual faz vária referências às idéias de Schopenhauer. Por uma outra via, postulados como os da inibição sexual, o dos complexos de idéias subconscientes, do incesto e da fixação materna, podem ter chegado a Freud filtrados através de Wagner.
Freud recorreu livremente também à mitologia e à filosofia gregas. Além de tomar da filosofia a noção de atividade associativa subconsciente, adotou também como divisão da mente humana a divisão platônica da alma, renomeando-as como Id, Ego e Superego. Ainda aqui Schopenhauer pode ter sido o seu guia e inspirador, porque foi aquele filósofo e não Freud que se dedicou ao estudo da filosofia clássica notadamente ao platonismo.
Wagner. O compositor Richard Wagner, inspirado no seu perdido amor por Mathilde Wesendonk, que causou sua separação de sua esposa Minna, e influenciado pela filosofia pessimista de Arthur Schopenhauer, escreveu Tristan und Isolde (1857-59), que tem por expressão fundamental a vontade cega. Em 1869 Wagner retomou um antigo projeto, a tetralogia Der Ring des Nibelungen ("O anel de Nibelung"), entrelaçando significados como, em um nível, a preocupação com o nacionalismo alemão, o socialismo internacional, a filosofia de Schopenhauer, o budismo, e o cristianismo; e em outro nível, o tratamento de temas que Freud desenvolveria depois na psicanálise, como o poder dos complexos com origem na inibição sexual, incesto, fixação materna e complexo de Édipo.
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Época, vida e obras de Arthur Schopenhauer
Página de Filosofia Contemporânea
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)
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Síntese: Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo pessimista em sua visão do mundo, considerou ser a Vontade a última e mais fundamental força da natureza, que se manifesta em cada ser no sentido da sua total realização e sobrevivência. Iniciou estudos de medicina na universidade de Gottingen, mudando depois para filosofia, na universidade de Berlim. Sua tese Vierfach Wutzel der Zats uber zurechern Grund ( "Sobre a quádrupla raiz do princípio da razão suficiente") foi escrita em 1813. O difícil convívio com sua mãe com certeza marcou sua personalidade mas ela lhe permitiu conhecer intelectuais como Goethe (1749-1832), que freqüentavam sua casa em Weimar, centro da vida cultural alemã em sua época. Com a herança recebida do pai pôde viver sua vida de solteiro com relativo conforto e inteiramente entregue ao seu trabalho intelectual. Seu livro mais conhecido, Die Welt als Wille and Vorstellung ("O Mundo como vontade e representação") apareceu em 1818.
Formação. Arthur Schopenhauer nasceu a 22 de fevereiro de 1788 em Gdansk, na Polônia, cidade que depois passaria à Prússia como Danzig, e voltaria a ser Gdansk após a Segunda Guerra Mundial. Sua mãe, Johanna, foi escritora, e seu pai Heinrich Floris Schopenhauer, foi negociante e era um homem irascível e dominador. Quando em 1793 Gdansk passou à Prússia, a família mudou-se para Hamburgo.
Ao final de sua infância Schopenhauer viveu por perto de dois anos (1798/1800) no Havre de Grâce, França, em casa de um comerciante amigo de seu pai. No retorno a Hamburgo estudou em uma escola particular de comércio as doutrinas econômicas dos iluministas. A idéia era que ele continuasse as especulações financeiras do pai.
Com 15 anos acompanhou os pais em viagem pela Europa, em um giro contrário aos ponteiros do relógio: Bélgica, França, Suíça e Áustria. Seus biógrafos salientam que ficou impressionado com a prisão de Bagno, em Toulon, na França, que reunia seis mil galés, um quadro de miséria humana que pode ter contribuído muito para o seu extremo pessimismo.
Passou à prática comercial, ao falecer seu pai em 1805. Este suicidou aos 58 anos, aparentemente por problemas mentais de fundo genético (sua progenitora havia morrido louca) e prejuízos financeiros. A mãe, viúva aos 38 anos, e a irmã do filósofo foram para Weimar. Ele permaneceu em Hamburgo para cuidar de negócios e somente em maio de 1807 foi juntar-se à família em Weimar.
Em 1809 Matriculou-se na escola de Medicina da Universidade de Göttingen. Porém desistiu da medicina e passou à filosofia e Letras (humanidades) no 2o semestre. Trocou Göttingen por Berlim no outono de 1811, e lá foi aluno de Fichte e de Friedrich Schleiermacher um dos pais da moderna teologia. Agradaram-lhe mais as aulas de Friedrich August Wolf. Estudou Platão e Kant e teve a influência de Gottlob Ernst Schultze, autor de Aenesidemus, crítico do kantismo.
Devido à guerra, deixa Berlim para viver em uma hospedaria em Rodolstadt. Termina sua tese "Vierfach Wutzel der Zats uber zurechern Grund ( "Sobre a quadrupla raíz do princípio da razão suficiente) que apresenta na Universidade de Jena em 1813
Período em Weimar. Schopenhauer não aprovava a conduta da mãe e as relações entre os dois ficaram difíceis, quando ele se juntou à família em Weimar. Ele não quis morar sob o mesmo teto que ela e ia à sua casa apenas quando ela dava recepções. Ainda assim, as censuras e as acusações mútuas, ela de que ele era arrogante e presumido, ele reprovando seu comportamento livre, acabaram por levar a uma rutura definitiva entre mãe e filho. Uma pequena mostra dessa arrogância é muito citada: Schopenhauer teria dito que ela seria conhecida no futuro não pelo que ela escreveu, mas pelo fato de ter sido a mãe dele. Em uma de suas discussões a mãe o empurrou escada abaixo. No entanto, foi nas reuniões de que participou em casa de sua mãe que Schopenhauer conheceu as figuras mais importantes da cidade, inclusive Goethe, que podia levar consigo a amante Christiane, recusada em casa de seus outros amigos.
No inverno de 1813-1814 trabalhou com Goethe em um artigo sobre as cores, Über des Sehen und die vorstellung ("Sobre a visão e as cores") apoiando as idéias de Goethe contra Newton, que seria publicado em 1816..
Além de Goethe, Schopenhauer conheceu em Weimar a Johan Gottfried Herder, o clérigo então célebre por haver liderado o movimento Sturm und Drang; o discípulo de Herder, Friedrich Maier, que o introduziu na filosofia hindu, e ao poeta Christoph Martin Wieland, que publicava a prestigiosa revista literária "Mercúrio alemão". Goethe reconhecia seu talento para a investigação filosófica. Também conheceu - e apaixonou-se por ela -, a cantora Karolina Jagemnn, amante do Duque Carlos Augusto, e inimiga de Goethe.
Em maio de 1814 rompeu definitivamente com sua mãe e foi viver em Dresden. Depois que deixou Weimar, nunca mais procurou por ela nos 24 anos que ela ainda viveu.
Período em Dresden. Schopenhauer haveria de passar alguns anos em Dresden. Lá colaborou ocasionalmente no periódicoDresdener Abendzeitung ("Jornal vespertino de Dresden") e se tornou amigo do filosofo panteísta K G F Krause com o qual podia discutir filosofia oriental; terminou seu artigo sobre as cores, iniciado com Goethe, e publicado em 1816, e esteve ligado a uma mulher.
Nos três anos seguintes escreveu sua obra principal Die Welt als Wille and Vorstellung ("O Mundo como vontade e representação") que seria publicado em 1819.
A obra está dividida em quatro livros. O primeiro trata da teoria do conhecimento, iniciando-se por Kant, para quem o mundo só é conhecido em sua aparência, e pelos fenômenos que relacionam as coisas entre si.
No livro II, trata do homem, do sujeito que conhece os fenômenos, conhece a si mesmo externamente, mas não pode conhecer sua própria essência. No entanto o homem pode conhecer a Vontade, que é algo em si mesma, independente de aparências. E conclui que essa "coisa em si" é a essência e a força não apenas do homem mas de todo o universo, e sua permanente insatisfação é a causa de todos os males.
Nos livros III e IV Schopenhauer desenvolve suas idéias sobre Ética e Estética. As artes permitem ao homem viver momentos em que está livre da Vontade. Classifica as artes segundo esse poder: Arquitetura é a menos capaz de dar essa liberdade, e a música é a mais libertadora de todas, ultrapassando a poesia. A superação definitiva da vontade, no entanto, tem por único caminho renunciar ao individualismo, compadecer-se do sofrimento alheio e viver como os gênios e os santos, uma vida de ascetismo e desprendimento.
Maturidade. Em 1819 Schopenhauer fez uma viagem a Itália. Em Veneza teve uma amante, chamada Teresa. Desta viagem ficou registrado um incidente: passeando com a amante, esta mostrou incontida admiração pela figura do poeta inglês Byron, que estava na cidade e passou pelo casal no cavalo a galope. Por ciúme Schopenhauer não procurou pelo poeta, para o qual tinha uma carta de apresentação de Goethe.
Após sua viagem à Itália, em 1820, Schopenhauer fez concurso para professor da Universidade de Berlim. Hegel fez parte da banca examinadora. Obteve o lugar na Universidade e começou uma competição com Hegel pelos alunos que pagariam seu salário. Conseguiu apenas nove estudantes. Ficou dois anos ligado à Universidade mas somente lecionou no 1 semestre do primeiro ano. Os estudantes preferiam as aulas de Hegel.
De índole beligerante e cheio de ressentimentos, a partir de então Schopenhauer combateu implacavelmente Hegel e seus colegas amigos daquele filósofo, inclusive Schelling e Fichte, chamando-os fanfarrões e charlatães, e atacou os professores de filosofia em geral no seu ensaio "Sobre a filosofia na universidade". Depois de uma segunda viagem à Itália (1823 e 1824), foi por um ano professor em Munique. Traduziu então "O oráculo manual", do jesuíta espanhol Baltazar Gracián, cujo estilo autoritário e abundante em máximas morais ele admirava.
A partir de 1831 passou a residir em Frankfurt on Main.
Um seu biógrafo conta que Schopenhauer havia herdado uma participação na firma do pai e a renda que isso lhe proporcionava permitiu-lhe viver com relativo conforto. Comenta que ele investiu seu dinheiro com uma sabedoria que não condiz com um filosofo. Quando uma empresa da qual ele havia adquirido ações faliu, e os outros credores concordaram com um acerto na base de 70%, Schopenhauer lutou pelo pagamento integral, e ganhou. Ficou com o suficiente para alugar dois quartos numa pensao; ali viveu os últimos trinta anos de sua vida
Últimos anos. Sempre sustentado por rendas com origem na herança recebida do pai, quando não estava escrevendo despendia o tempo em observações no Museu de Ciências Naturais, freqüentava teatros e concertos, ocupava-se da leitura dos clássicos, de mestres espanhóis e literatos franceses, e mantinha pouco contacto social. Sem nenhum amigo, tinha por companheiro um cachorro, um pequeno poodle ao qual deu o nome de Atma (o termo brâmane para indicar a Alma do Mundo), mas os galhofeiros da cidade o chamavam de "Schopenhauer Júnior". Caminhava solitário com seu cachorro e falava sozinho na rua, em seus passeios ao fim da tarde.
Jantava, em geral, no Englischer Hof. No inicio de cada refeição, colocava uma moeda de ouro sobre a mesa, à sua frente; e ao final tornava a colocar a moeda no bolso. Foi, sem dúvida, um garçom intrigado com esse gesto que lhe perguntou o significado daquela invariável cerimônia. Schopenhauer respondeu que era sua aposta silenciosa, com a promessa de depositar a moeda na caixa de coleta de esmolas no primeiro dia em que os oficiais ingleses que jantavam lá falassem sobre outra coisa qualquer que não fosse cavalos, mulheres ou cachorros.
Em 1836 publicou Über der willen in der Natur ("Sobre a vontade na natureza"), um complemento ao 2o. livro do Die Weltbuscando demonstrar que as descobertas das ciências naturais corroboravam sua teoria da vontade. No prefácio ataca Hegel e seus adeptos. No ano seguinte recebeu um prêmio da Sociedade de Ciências da Noruega pelo Über die Freiheit des Menchlichen willens ("Sobre a liberdade da vontade dos homens"), que depois foi publicado em 1839. Concorreu, mas perdeu, ao prêmio da sociedade de Ciências da Dinamarca com Über des fundament der Moral" ("Sobre os fundamentos da Moral") publicado em 1840, complemento ao 4o. livro do Die Welt. Finalmente reuniu o 4o livro do Die Welt com o Uber des fundament em um único Die beiden grandproblem der Ethik ("Os dois problemas fundamentais da Ética") publicado em 1841.
Em 1848 condenou a revolução como uma erupção da natureza primitiva do homem.
Teve alguns discípulos. Um deles, Julius Francenstadt, conseguiu que um editor de Berlim publicasse seu último livro, o qual fora rejeitado por 3 outros editores, o Parerga und Paralipomena ( significa "Acessórios ou trabalhos menores" e "Remanescentes"), de 1851. O livro teve um inesperado sucesso e contribuiu para tornar o filósofo conhecido. Em 1853 John Oxenford, um crítico inglês, escreveu um artigo no Westminster Review contra Hegel usando elementos da filosofia de Schopenhauer o que contribuiu para sua fama.
Wagner lhe enviou "O Anel de Nibelung em 1854, com a dedicatória "com veneração e gratidão". Nesta obra, uma tetralogia, o compositor alemão expressa seus fortes sentimentos pelo nacionalismo alemão, o socialismo internacional, a filosofia de Schopenhauer, o budismo e o cristianismo. Em Bhon e Breslau eram dadas aulas de sua filosofia. Foi comparado ao poeta pessimista italiano Conde Giacomo Leopardi, e recebeu a visita do dramaturgo Friendrich Hebbel e do estadista francês Foucher de Careil. Em 1858 a Academia Real de Ciências de Berlim ofereceu-lhe o título de membro, que ele recusou.
Em 1859 saiu a 3a. edição do Die Welt, em 1860 a segunda edição do Ethika. Faleceu em 21 de setembro de 1860 de mal subto.
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Rubem Queiroz Cobra 

Augusto Conte

COMTE
Época, vida e obras de Isidore-Auguste-Marie-François-Xavier Comte - Parte I!
Página de Filosofia Contemporânea
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

Pensamento. A contribuição principal de Comte à filosofia do positivismo foi sua adoção do método científico como base para a organização política da sociedade industrial moderna, de modo mais rigoroso que na abordagem de Saint Simon. Em sua Lei dos três estados ou estágios do desenvolvimento intelectual, Comte teoriza que o desenvolvimento intelectual humano havia passado historicamente primeiro por um estágio teológico, em que o mundo e a humanidade foram explicados nos termos dos deuses e dos espíritos; depois através de um estágio metafísico transitório, em que as explanações estavam nos termos das essências, de causas finais, e de outras abstrações; e finalmente para o estágio positivo moderno. Este último estágio se distinguia por uma consciência das limitações do conhecimento humano. As explanações absolutas consequentemente foram abandonadas, buscando-se a descoberta das leis baseadas nas relações sensíveis observáveis entre os fenômenos naturais.
Comte tentou também uma classificação das ciências; baseada na hipótese que as ciências tinham se desenvolvido a partir da compreensão de princípios simples e abstratos, para daí chegarem à compreensão de fenômenos complexos e concretos. Assim as ciências haviam se desenvolvido a partir da matemática, da astronomia, da física, e da química para atingir o campo mais complexo da biologia e finalmente da sociologia. De acordo com Comte, esta última disciplina, a Sociologia, não somente fechava a série mas também reduziria os fatos sociais a leis científicas, e sintetizaria todo o conhecimento humano, como ápice de toda a ciência.
Embora não fosse dele o conceito de sociologia ou da sua área de estudo, Comte ampliou seu campo e sistematizou seu conteúdo. Dividiu a Sociologia em dois campos principais: Estática social, ou o estudo das forças que mantêm unida a sociedade; e Dinâmica social, ou o estudo das causas das mudanças sociais.
Seu conceito de uma sociedade positiva está no seu Système de politique positive ("Sistema de Política Positiva").
Paralelismo com Saint-Simon. A habilidade particular de Comte era como um sintetizador das correntes intelectuais as mais diversas. Tomou idéias principalmente dos filósofos modernos do século XVII e XVIII. Dando nova roupagem às idéias de HobbesAdam Smith, afirmou que os princípios subjacentes da sociedade são o egoísmo individual, que é incentivado pela divisão de trabalho. No seu entender, lembrando Hobbes, a coesão social se mantém por meio de um governo e um estado fortes. Dando ênfase a hierarquia e obediência, rejeitou a democracia, sustentando que o governo ideal seria constituído por uma elite intelectual. De vários filósofos do Iluminismo adotou a noção do progresso histórico e particularmente de David Hume e Immanuel Kant tomou sua concepção de positivismo, ou seja, a teoria de que o Teologia e a Metafísica são modalidades primárias imperfeitas do conhecimento e que o conhecimento positivo é baseado em fenômenos naturais e suas propriedades e relações como verificado pelas ciências empíricas, tese Kantiana por excelência..
Comte segue Saint-Simon quando considera a necessidade de uma ciência social básica e unificadora que explicasse as organizações sociais existentes e guiasse o planejamento social para um futuro melhor. Na sua hábil sistematização Comte chamou esta nova ciência "Sociologia", pela primeira vez. Porém vai temerariamente mais adiante que seu mestre quando afirma que os fenômenos sociais poderiam ser reduzidos a leis da mesma maneira que as órbitas dos corpos celestes haviam sido explicadas pela teoria gravitacional quase trezentos anos antes.
Como Saint-Simon, Comte queria a administração real do governo e da economia nas mãos dos homens de negócios e dos banqueiros. De Saint-Simon é originalmente a idéia de que a finalidade da análise científica nova da sociedade deve ser melhoradora, e que o resultado final de toda a inovação e sistematização na nova ciência deveria ser a orientação do planejamento social. O mais importante realmente provem de Saint-Simon, que havia enfatizado originalmente a importância crescente da ciência moderna e o potencial da aplicação de métodos científicos ao estudo e à melhoria da sociedade. Comte, porém, dá um toque pessoal seu, com origem em sua paixão por Clotilde, dizendo que a manutenção da moralidade privada seria competência das mulheres como esposas e mães.
Comte também pensou que era necessário implantar uma ordem espiritual nova e secularizada a fim de suplantar o sobrenaturalismo ultrapassado da teologia cristã. De Saint-Simon e outros reformadores franceses menores Comte tomou a noção de uma estrutura hipotética para a organização social que imitaria a hierarquia e a disciplina existente na igreja católica romana. Como Saint-Simon, ele veio a adotar a idéia de que a organização da igreja católica romana, divorciada da teologia cristã, podia fornecer um modelo estrutural e simbólico para a sociedade nova, idéia que, no entanto, fora uma das causas alegadas para seu rompimento com o mestre. Comte substituiu a adoração a Deus por uma "religião da humanidade"; um sacerdócio espiritual de sociólogos seculares guiaria a sociedade e controlaria a instrução e a moralidade pública.
Comte viveu para ver sua obra comentada extensamente em toda a Europa. Muitos intelectuais ingleses foram influenciados por ele, e traduziram e promulgaram seu trabalho. Seus devotos franceses tinham aumentado também, e mantinha uma correspondência volumosa com sociedades positivistas em todo o mundo.
Rubem Queiroz Cobra            Doutor em Geologia e bacharel em Filosofia
Lançada em 24/04/1999 (como anexo a Filosofia Moderna)

Augusto Conte

COMTE
Época, vida e obras de Isidore-Auguste-Marie-François-Xavier Comte - Parte I
Página de Filosofia Contemporânea
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

Vida. Comte, cujo nome completo era Isidore-Auguste-Marie-François-Xavier Comte, nasceu em 19 de janeiro de 1798, em Montpellier, e faleceu em 5 de setembro de 1857, em Paris. Filósofo e auto-proclamado líder religioso, deu à ciência da Sociologia esta denominação e estabeleceu a nova disciplina em uma forma sistemática.
Foi aluno da célebre École Polytechnique, uma escola em Paris fundada em 1794 onde se ensinava a ciência e o pensamento mais avançados da época. De família pobre, sustentou seus estudos com o ensino ocasional da matemática e oportunidades no jornalismo.
Um de seus primeiros empregos foi o de secretário do Conde Henri de Saint-Simon, o primeiro filósofo a ver claramente a importância da organização econômica na sociedade moderna, e cujas idéias Comte absorveu, sistematizou com um estilo pessoal e difundiu.
Comte foi apresentado ao filósofo, então diretor do periódico Industrie, no verão de 1817. Saint-Simon, um homem de fértil, mas tumultuada e desordenada criatividade, então quase sessenta anos mais velho que Comte, foi atraído pelo jovem brilhante que possuiu a capacidade treinada e metódica para o trabalho que lhe faltava. Comte tornou-se seu secretário e colaborador próximo, na preparação de seus últimos trabalhos. Quando Saint-Simon experimentou problemas financeiros, Comte permaneceu sem pagamento, ao que parece por razões intelectuais e talvez também a esperança de recuperação pecuniária do patrão.
Os esboços e os ensaios que Comte escreveu durante os anos da associação próxima com Saint-Simon, especialmente entre 1819 e 1824, mostram inequivocamente a influência do mestre. Esses primeiros trabalhos já contêm o núcleo de todas suas idéias principais, mesmo as mais tardias.
Em 1824 Comte desentendeu-se com Saint-Simon por questões de autoria legítima de ensaios que Comte devia publicar. A solução, que Comte considerou injusta, foi que cem cópias do trabalho saíram sob o nome de Comte, enquanto mil cópias, intituladas Catechisme des industriels indicavam a autoria de Henri de Saint-Simon. Outra causa do rompimento foi, ironicamente, Comte desdenhar a idéia de um paradigma religioso no projeto de Saint Simon, ele, Comte, que depois haveria de adotar essa idéia de modo ainda mais radical, proclamando a si mesmo como sumo sacerdote da Humanidade.
Em fevereiro 1825 Comte se casou com Caroline Massin, proprietária de uma pequena livraria, uma moça que ele já conhecia a alguns anos. Comte a achava forte e inteligente, mas depois taxou-a de ambiciosa e desprovida de afetividade. O casamento foi sempre tumultuado por motivos financeiros, uma vez que Comte não conseguia uma posição com salário fixo e contava apenas com os rendimentos das aulas particulares e alguma renda adicional por colaborações a jornais, mais freqüentemente para oProducteur, um jornal fundado pelos filhos espirituais de Saint-Simon após a morte do mestre.
Depois de se afastar de Saint Simon, a principal preocupação de Comte tornou-se a elaboração de sua filosofia positiva. Não tendo nenhuma cadeira oficial da qual expor suas teorias, decidiu oferecer um curso particular que os interessados subscreveriam adiantado, e onde divulgaria sua Summa do conhecimento positivo. O curso abriu em abril, 1826, com a presença de alguns curiosos ilustres como Alexander von Humboldt, diversos membros da academia das ciências, o economista Charles Dunoyer, o duque Napoleon de Montebello, e Hippolyte Carnot, filho do organizador dos exércitos revolucionários e irmão do cientista Sadi Carnot, e vários estudantes da Ecole Polytechnique.
Comte deu apenas três aulas e foi obrigado a interromper o curso devido a um colapso nervoso. Seu mal foi diagnosticado como "mania", no hospital do famoso Dr. Esquirol, o autor de um tratado sobre essa doença e um ex-aluno do não menos famoso Dr. Pinel, na Salpetrière. Ele próprio submeteu Comte a um tratamento com banhos de água fria e sangrias. Apesar de não receber alta, Comte foi levado para casa por Caroline
Em casa, Comte caiu em um estado melancólico profundo, e tentou mesmo o suicídio jogando-se no rio Sena. Somente em agosto 1828 logrou sair de sua letargia. O curso das conferências foi recomeçado em 1829, e Comte ficou satisfeito outra vez por encontrar na audiência diversos nomes de grandes das ciências e das letras.
Durante os anos 1830-1842, quando escreveu sua obra prima, Cours de philosophie positive, Comte continuou a viver miseravelmente na margem do mundo acadêmico. Todas as tentativas de ser apontado para uma cadeira na Ecole Polytechniqueou para uma posição na Academia das Ciências ou na Faculdade da França foram infrutíferas. Conseguiu somente em 1832 ser apontado assistente de "analyse et de mecanique" na Ecole; cinco anos mais tarde obteve também a posição de examinador externo para a mesma escola. Com as duas posições recebia pouco mais de dois mil francos, o que era pouco para as despesas que tinha com a esposa, e obrigou-o a continuar com as aulas particulares para o sustento da casa.
Durante os anos da concentração intensa quando escreveu o Cours, Comte foi incomodado não somente por dificuldades financeiras e as frustradas tentativas de emprego acadêmico. Também sofreu críticas do mundo científico por parte de importantes figuras que o ridicularizavam pela sua pretensão de submeter ao seu sistema todas as ciências. A mágoa agravou seu estado psicológico. Por razões "de higiene cerebral", decidiu-se, em 1838, a não ler mais uma linha de qualquer trabalho científico, limitando-se à leitura de ficção e poesia. Em seus últimos anos, o único livro que haveria de ler repetidamente seria o "Imitação de Cristo". Sua vida matrimonial, que sempre fora tempestuosa, também se desfez.. Comte teve várias separações de Caroline, que não suportava os seus fracassos e terminou por deixá-lo definitivamente em 1842.
Só e isolado, continuou a atacar os cientistas que se recusavam a reconhecê-lo. Queixou-se de seus inimigos aos ministros do Rei, escreveu cartas delirantes à imprensa e atormentou a paciência dos poucos amigos que lhe restavam. Criando um número grande de inimigos na Ecole Polytechnique, sua nomeação como examinador não foi renovada em 1844. Perdeu com isto a metade de sua renda. Iria perder também a posição de assistente na Ecole em 1851.
Contudo apesar de todas estas adversidades, Comte começou lentamente a adquirir discípulos. E mais importante para ele foi que, além de encontrar alguns discípulos franceses notáveis tais como o eminente intelectual Emile Littré, também a sua doutrina positiva havia atravessado o Canal e recebera considerável atenção na Inglaterra. David Brewster, um físico eminente, saudou-o nas páginas do Edinburgh Review em 1838 e, o mais gratificante de tudo, John Stuart Mill transformou-se em seu admirador, citando-o em seu System of Logic (1843) como um dos principais pensadores europeus. Comte e Mill se corresponderam regularmente, e esse intercâmbio serviu a Comte não somente para refinar seus pensamentos como também para desabafar com o filósofo inglês as tribulações de sua vida conjugal e as dificuldades de sua existência material. Mill arrecadou entre admiradores britânicos de Comte uma soma considerável em dinheiro e lhe enviou como socorro para suas dificuldades financeiras.
No mesmo ano de 1844, Comte conheceu Clotilde de Vaux, por quem se apaixonou. Ela era uma mulher de trinta anos abandonada pelo marido, um funcionário público do baixo escalão, que havia fugido do país depois de se apropriar de fundos do governo. Um irmão de Clotilde que havia sido aluno de Comte na Escola Politécnica, e o convidou a ir à casa de seus pais, onde lhe apresentou a irmã. Comte ficou inteiramente seduzido por ela. Sua paixão tem, porém, um desdobramento inusitado. Clotilde está impedida pela lei de casar-se achando-se o seu marido foragido.
Auguste Comte tinha então quarenta e sete anos, e havia se separado três anos antes de sua mulher. Acabara de concluir seu monumental Cours de philosophie positive, e se preparava para escrever o que pretendia que seria sua principal obra, o Système de politique positive, do qual ele considerava o Cours de philosophie como apenas uma introdução. Entusiasmado com a própria paixão, Comte afirma que nada pode ser mais eficaz para o bem pensar que o bem querer. Afirma que a mulher encarna o sentimento e portanto, em última análise, a própria Humanidade, e se torna um abrasado feminista. Busca seriamente associar o sexo feminino, na pessoa de Clotilde, à obra de renovação social e moral que se impôs completar. Clotilde tenta colaborar, através de um romance filosófico, Wilhelmine, que ela se põe diligentemente a escrever. Mas adoece de tuberculose e vem a falecer em 1846.
Comte irá devotar o resto de sua vida à memória do "seu anjo". O Système de politique positive, que tinha começado a esboçar em 1844 e no qual completou sua formulação da sociologia., iria transformar-se em um memorial a sua amada. Cinco anos mais tarde, em 1851, ao publicar essa obra, dedicou-a a Clotilde, dizendo esperar que a humanidade, reconhecida, haveria de lembrar sempre seu nome junto ao dela.
No Système de politique positive, Comte, voltando-se contra a doutrina do mestre Saint-Simon, defendeu a primazia da emoção sobre o intelecto, do sentimento sobre a racionalidade; e proclamou repetidamente o poder curativo do calor feminino para a humanidade dominada por tempo demasiado pela aspereza do intelecto masculino. Por outro lado, distorceu a proposta de disciplina eclesiástica de Saint-Simon e criou a "Religião da Humanidade".
Quando o Système apareceu entre 1851 e 1854, Comte escandalizou e perdeu a maioria dos seguidores racionalistas que ele havia conquistado com tanta dificuldade nos últimos quinze anos. John Stuart Mill e Emile Littre não aceitaram que o amor universal fosse a solução para todas as dificuldades da época. Tão pouco aceitariam a "Religião da Humanidade" da qual Comte se proclamou o sumo sacerdote. A observação dos rituais múltiplos segundo o calendário anual, os detalhes da elaborada liturgia indicavam que o antigo profeta do estágio positivo havia regressado às trevas do estágio teológico. Comte passou a assinar suas circulares - aos novos discípulos que conseguiu reunir - como "fundador da religião universal e sumo sacerdote da humanidade". Tentou converter o Superior Geral dos Jesuítas à nova fé e comparou suas circulares aos discípulos com as epístolas de São Paulo. Fundou a Societé Positiviste, que se transformou no centro principal de seu ensino. Os membros se cotizaram para assegurar a subsistência do mestre e fizeram os votos de espalhar sua mensagem. As missões se instalaram, na Espanha, Inglaterra, Estados Unidos, e na Holanda.
Cada noite, das sete às nove, exceto nas quartas-feiras quando a Societé Positiviste tinha sua reunião regular, Comte recebia seus discípulos em sua casa em Paris: políticos, intelectuais e operários, que lhe votavam grande respeito e veneração. Comte estava longe do entusiasmo republicano e libertário de sua juventude. O moto da Igreja Positiva era "amor, ordem e progresso". O jovem estudante de passeata agora pregava as virtudes do amor, da submissão e a necessidade da ordem para o progresso social.
Em 1857, Comte, após alguns meses de enfermidade, faleceu a cinco de setembro. Um grupo pequeno de discípulos, de amigos, e de vizinhos seguiu seu esquife ao cemitério de Pere Lachaise. Seu túmulo transformou-se no centro de um pequeno cemitério positivista onde estão sepultados, perto do mestre, seus discípulos mais fiéis.
Rubem Queiroz Cobra            Doutor em Geologia e bacharel em Filosofia