quinta-feira, 18 de maio de 2017

UM BRASIL SEM RUMO, SEM EIRA NEM BEIRA, COMPLETAMENTE À DERIVA


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José Manuel Cruz Cebola


Nos finais da década de 90 do século passado, escrevia eu que o Brasil atingiria em 2015 o estatuto de nação dominante da América do Sul e, por volta do ano 2025, seria a nação dominante de todo o continente americano. No Palácio do Planalto estava Lula da Silva.
A minha primeira previsão concretizou-se. Em 2014 já o Brasil detinha a liderança do continente sul-americano. Porém, nesse mesmo ano, a ano fatídico para a história do Brasil, aquando da realização da Copa, quando ouvi o 'povão' gritar nos estádios 'Dilma, vai tomar no c* !', logo conclui que o sonho brasileiro estava à beira da derrocada. E quando ouvi, dois anos depois, em Abril de 2016, durante a votação na Câmara, os egrégios representantes do tal 'povão' gritando histericamente para as câmaras das televisões “Dedico este título à mamãe que tantos sacrifícios fez pra que eu chegasse aqui ao apogeu com o auxílio de vocês.”, mais parecendo convidados do antigo Xou da Xuxa, semiencabulados, mandando 'beijinho pra minha mãe, pro meu pai e especialmente pra você', tentando um exercício retórico feito por quem não domina a retórica, mas que foi eficaz nas bases. Aí, eu fiz uma constatação: o Parlamento era a cara do Brasil, e a média dos brasileiros falaria isso; foi um exercício doloroso de brasilidade retórica.
Foi um espectáculo de política rasteira -, com o seu exibicionismo, invocando Deus como se o respeitassem, usando o espaço público para dar visibilidade aos seus parentes e fazer média em casa, citando a esposa mas não citando a amante, fingindo uma dignidade que não tinham. O problema é que essas transmissões televisivas - quer da Copa, quer da Câmara - não foram vistas apenas no Brasil. O mundo inteiro assistiu apavorado e reflectiu. Afinal, um país assim não pode estar no pódio dos países do Primeiro Mundo. Há que mandar o Brasil de volta para o Terceiro Mundo, de onde começara a sair em 2003. E assim foi. O Brasil regrediu não para 2002, mas para bem mais atrás.
E foi então que eu comecei a gritar aos ventos, que levavam a minha voz para o outro lado do Atlântico, a letra da canção da Cris (Cristina) Nicolotti, uma actriz, cantora e apresentadora de televisão ítalo-brasileira: "Eu falei / Que isso ia dar merda / Que isso ia dar merda / E deu". Infelizmente, deu. E porque escrevo eu 'infelizmente' e porque, não sendo analista político, tanto me preocupo com o Brasil? É uma pergunta que se impôe para muitos de vós, penso eu. Pois bem, eu explico. O Brasil, tal como todos os outros países de língua oficial portuguesa descobertos e colonizados por Portugal, continuam com o seu cordão umbilical ligada à velha Lusitânia. Por muito que tantos e tantos não gostem, isso é um facto. Nós, portugueses, sentimos que esses países são filhos nossos que cresceram, atingiram a sua maioridade, e seguiram a sua vida. Mas a massa genética continua a mesma. E qual o pai que não se orgulha dos feitos dos seus filhos, mesmo que estes, muitas vezes, lhe tenham voltado as costas? Confesso que uma das minhas maiores felicidades seria saber que - e falo agora apenas do Brasil - as Terras de Vera Cruz eram a nação dominante do continente americano. Que orgulho! 'Vejam, isto foi obra nossa!', poderia eu dizer.
Falava eu acima do 'povão'. Usei e uso esta palavra no sentido depreciativo. Esse 'povão' é toda aquela camada do povo brasileiro que antes de 2003 não tinha onde cair morto. Analfabeto ou, na melhor das hipóteses, semi-analfabeto, no limiar da pobreza (a fome era hereditária: a extrema pobreza passava de geração para geração), sem possibilidade de dar um futuro aos seus filhos. E não eram assim tão poucos.... Estamos a falar de algo como 50 milhões de brasileiros. Já agora, para não dizerem que estou a falar à toa e sem saber o que digo, o relatório “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo – 2014”, divulgado em 16 de Setembro último pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), afirmou que o Brasil reduziu em 82% a população em situação de subalimentação, entre 2002 e 2012. Bem, mas eu não estou aqui para discutir estatísticas, pois os números falam por si. Apenas queria definir o que entendo por 'povão'. É que eu conheço muito desse povão. Os meus primeiros contactos com ele remontam a 1996, quando comecei a dar trabalho a moças brasileiras que tinham fugido da fome nas suas terras. Foram as primeiras vagas de imigração brasileira. Na sua maioria, estas jovens mulheres, eram oriundas sobretudo de Minas Gerais, do Paraná e da Baía e nunca tinham saído das suas terrinhas. Na melhor das hipóteses, tinham ido até à capital do seu estado. Se esta não ficasse distante. Uma delas, uma mocita de 23 anos, oriunda do sertão da Baía, tinha sido entregue pelos pais a uma familia abastada da região para a servir como empregada para todo o serviço quando tinha 13 anos. E, durante os 10 anos que essa jovem trabalhou para essa família, nada mais recebeu que a comida que lhe davam e a dormida num colchão no chão. Ora essa jovem baiana chegou a Portugal, fugida da casa da família que a escravizara, com um bilhete pago às prestações por familiares e amigos no Brasil, e, uma semana depois, estava a trabalhar como empregada doméstica interna em casa de minha falecida mãe. E dos zero Reais que ganhava no Brasil, passou a receber 750 Euros (ao tempo equivalia a mais de 2.600 Reais). Bem, na realidade o que ela ganhava era bem mais, pois recebia 14 ordenados por ano, mais a comida e a dormida que não tinha que pagar. Tudo isto dava uma média de 1.500 Euros mensais (mais de 5.200 Reais). Mas, adiante...
Mais tarde, por volta do ano de 2004, comecei a ter contacto virtual com montes de gente no Brasil. Devido ao facto de deter o então mais conhecido grupo lusófono dos extintos MSN Groups, de ter duas Salas de Chat e de estar presente em todos os portais de amizade então existentes (Gazzag, Hi5, Orkut, etc, etc), onde juntei largos milhares de amizades virtuais, conheci muita gente do Brasil. Alguns deles vim a conhecer pessoalmente mais tarde. E posso garantir que, exeptuando uma pequeníssima fatia de 'abençoados' pela sorte que já viajavam pelo país e pelo mundo, a maior parte deles não tinha onde cair morto. Casa própria? Carro 'zero km'? Passeios à Europa? Impensável. Educação e futuro para os filhos? Nem pensar.
Em poucos anos uma larga parte dessas amizades conseguiu ter carro, conseguiu ter casa própria, conseguiu enviar os filhos para as universidades, conseguiu viajar para fora do país. E todos sabemos que foram estes, que ficarão conhecidos na história do Brasil como 'paneleiros' e 'coxinhas', que foram gritar impropérios contra uma presidente da República democráticamente eleita, que foram bater panelas nas ruas de S.Paulo ou do Rio, que, sem saberem (coitados!), apoiram as forças da reacção que conseguiram destituir essa presidente e, no decorrer de uma golpe palaciano, colocar no poder toda a pior corja de políticos da América do Sul. E elogiavam e apoiavam um traficante de droga, ao tempo governador de Minas Gerais, um neo-fascista que fazia a apologia da ditadura e preferia frases como “O erro da ditadura foi torturar e não matar” ou “Pinochet devia ter matado mais gente.”, um líder de uma seita religiosa que tanta trafulhice fez e tanto roubou ao país que está preso.
Eu conheço esse 'povão'. E não me venham provocar, se não eu começo a debitar nomes....
Mas voltemos ao título desta minha nota: Brasil, um país à deriva. Os noticiários de hoje dão destaque aos últimos desenvolvimentos na cena política brasileira.
Lava Jato: Polícia faz buscas após divulgação de subornos de Temer
Já foi inclusivamente pedido o afastamento de Aécio Neves do mandato de senador.
Mais leio que estão a ser efetuados, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público brasileiros, mandados de busca e apreensão em imóveis ligados ao senador Aécio Neves nas regiões do Rio de Janeiro, Brasília e Minas Gerais, tal como no gabinete do senador, no Congresso.
E leio que a irmã de Aécio Neves tem, sobre si, um mandado de prisão, que ainda não se materializou por esta estar fora do país.
E leio que, entretanto, a Procuradoria-Geral da República pediu a prisão do próprio Aécio Neves ao Supremo Tribunal Federal. No entanto, o pedido ainda não foi autorizado.
Também leio que, segundo a Globo, o procurador da República foi preso, em Brasília, e há pessoas ligadas ao ex-deputado federal Eduardo Cunha sobre quem recaem mandados de prisão ordenados pelo Supremo Tribunal Federal.
E mais leio que o presidente golpista Michel Temel teria dado carta branca para comprar o silêncio de Eduardo Cunha, o ex-líder da Câmara dos Deputados, no âmbito da Operação Lava Jato.
E até já posso adivinhar o que mais vem aí....
Mas penso também ter a solução: que os poucos sensatos e honestos que ainda restam no Brasil retirem o impedimento da Presidente Dilma e a deixem reocupar o lugar que, de forma traiçoeira, lhe tiraram.
Se assim não for, o Brasil não vai ter sossego. E não será só a casa de Temer que cairá. Será todo o Brasil.

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