domingo, 13 de novembro de 2011

Caixas de Natal

Marco Antunes

A verdade é que já não sei mais
tirar das caixas o Natal
como fazíamos anos atrás.

Era um não mais parar de descer caixas
guardadas em lugares altos da casa
durante os meses tristes do ano.

E todas eram caixas de sonhos:
redondas, compridas, largas
ou em formas improváveis de estrelas,
mas sempre cada uma revestida
de flores, de cestas de flores,
de pássaros que voavam fitas,
de anjinhos instrumentistas,
de formas natalinas e brilhos e
de moças antigas com sombrinhas de renda...

As caixas em si já eram o Natal
ou seu presságio e, quando abertas,
libertavam todas as esperanças
de frutos de cristal e pinhas de ouro.

A primeira delas,
pouco maior que uma caixa de sapatos,
revestida de estrelinhas, luas e sóis,
guardava lampadinhas coloridas
e era dever e privilégio de meu pai abrir.
Abrir e desenrolar o novelo de fio verde
que escorria pela sala até o corredor
enquanto, na outra ponta,
meu pai, muito sério, solene e preocupado,
fazia o primeiro teste na tomada...

Ah! Que bonito que era!
Porque em menos de um segundo,
as dezenas de cores se acendiam
como um rio de felicidade
que corria pela sala e lambia o corredor,
convidando o resto da casa para a festa que começava.

Claro que, no percurso da luz,
sempre uma ou outra morrera
durante o ano no silêncio dos armários,
mas a doce providência daquele homem,
tirava dos bolsos novos lumes e a festa prosseguia.

A segunda caixa era imensa,
talvez a mais feia delas,
porque de um reles papelão
onde apenas se lia "Made in England"
mas de dentro, saía ainda encolhida,
ramos tímidos, amassados,
a velha árvore de tantos natais.

Depois de despertada do seu sono,
revividos os ramos, desamassadas as folhinhas,
ela se revelava frondosa e de um verde perfeito
que para sempre, onde surgisse, seria dela
o verde da velho pinheiro inglês
que nos floria os natais.

Desapertá-lo era uma tarefa de todos
e a ela nos dedicávamos alvoroçados
felizes de, enfim, sermos chamados a ajudar.

A terceira caixa, muito fina, mas larguíssima,
se recobria de um papel prateado
com desenhos infinitos de flocos de neve,
dentro, os lamentos ficavam congelados
à espera desse dia em que viriam, depois das lâmpadas,
adornar nosso pinheiro dando-lhe uma remota
aparência de neve, neve da lembrança dos avós,
neve que não havia em nosso Natal.

Esses lamentos de prata
eram a delícia dos dedos nessa festa
porque nada, nunca em nossa vida
jamais seria tão macio
quanto aqueles fios
de leveza imponderável...

E chamavam-se lamentos!
(Tudo era poesia em nosso Natal!)

A quarta caixa, grande e redonda,
tinha moças antigas em fundo rosa
passeando como num romance antigo
ou se balançando em lindos cordões de flores.

Essa era a mais aguardada das caixas,
porque não regateava cores e brilhos
todos impossíveis depois do Natal.

Minha mãe sabia desse potencial mistério
e demorava, e demorava muito
em nos presentear de vez,
abrindo a tampa com descabido cuidado,
como se um descuido qualquer
pudesse pôr tudo a perder,
ansiosos, todos nós, inclusive meu pai,
que nunca deu pelo estratagema,
abaixávamos a cabeça
para ver já pela primeira fresta
uma miríade de bolas coloridas reluzentes
que eram frutos transcendentais desse pomar natalino.

Nossos olhos de criança
descobriam-se refletidos em rostos redondos
nos globinhos soprados em vidro tão fino
que se diria poderem pairar entre os galhos
sem auxílio de fios.

Ah! Que tristeza pelas bolas que se quebraram
e curiosidade pelos caquinhos restados,
como se, de repente, víssemos a anatomia dos sonhos!

Minha avó, sentada em sua cadeira de balanço,
ia pondo o fio de linha dourada em cada uma das bolas
e de suas mãos colhíamos a felicidade para dispor nos galhos.
os mais altos meu pai alcançava sozinho,
mas para lá iam somente as bolinhas
pequenas, dessas que as crianças não disputavam!

A essa altura, já era a toda prova, uma árvore de Natal
e nós nos afastávamos todos
para ver de longe como estava ficando a obra.
Maria vinha da cozinha com guaraná e biscoitos
que eram um modo de convidar o paladar
à alegria!

A sexta caixa era a dos pássaros e fitas
e nela se guardavam os enfeites variados
sua abertura era o requinte da euforia:
pássaros de vidro, pingentes de cristal,
sinos dourados, bengalinhas listradas,
anjinhos de porcelana, soldadinhos de madeira,
janelinhas enfeitadas, guirlandas de flores,
corações de rendas pedras preciosas,
pombinhos de purpurina branca,
igrejinhas, casinhas, trenós, renas e Papai Noel.

A árvore resplandecia então de mil histórias
com que a fomos enfeitando em cada peça.
era o melhor do mundo em nossa sala de estar!

Então, meu avô e só ele, abria a caixa grande
dos anjinhos instrumentistas e de lá tirava
uma a uma com respeito e reverência as
figuras da natividade
e todo ano
Com a mesma paciência
nos contava a história do menino Jesus,
o último a ir para o presépio
e todo ano ouvíamos como se fosse a primeira vez.

Por fim de uma caixa comprida
revestida de flores,
saía, ainda coberta de papel de seda
a longa e bela piteira,
que era o auge e o fim da festa.

Meu pai pegava um de nós
"ao acaso"
e naquele ano,
suspendia para glória o felizardo
que a colocava no topo da árvore
e minha mãe ligava as luzes
enquanto vovó e vovô já
cantavam baixinho "Noite Feliz".

Procuro entre minhas lembranças esses tesouros
guardados em caixas no meu coração
como se fossem minhas Rosebuds
onde foram parar as caixas
em que ainda estãi guardados todos aqueles natais
Onde?
Onde foram parar as caixas em que ainda ontem
Nós guardamos pela última vez a felicidade?

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