segunda-feira, 11 de julho de 2011

Obama e o senhor da guerra

Para fugir da crise, presidente Democrata pode seguir a mesma tática dos seus oponentes Republicanos

11 de Julho de 2011 às 16:19

Claudio Julio Tognolli

Os dados são da agência France Presse: os gastos de consumo mensal dos lares dos EUA reduziram-se em 175 dólares por pessoa desde o início da última recessão, em dezembro de 2007, segundo um estudo publicado nesta segunda-feira, 11 de julho, pelo Federal Reserve (Fed).
Esse montante corresponde à diferença entre o consumo real das famílias de dezembro de 2007 a maio de 2011 e o que deveria ter sido se houvesse mantido a tendência de antes da crise, afirma o trabalho realizado por um pesquisador do Fed, de San Francisco.
Em 31 de maio, 42 meses depois do início da recessão, o consumo real dos americanos era ainda 1,6% menor que seu pico de antes da crise, afirma o estudo. Em comparação, na recessão de 1990-1991, o consumo recuperou seu nível de antes da crise em 23 meses. Sabemos que a última recessão foi a mais brutal do pós-guerra. Foi finalizada oficialmente em junho de 2009.
O Produto Interno Bruto (PIB) americano superou em 2010 seu nível de 2007, mas a crise está longe de terminar, como mostra a persistência de um alto nível de desemprego (9,2% em junho, segundo os últimos dados oficiais).
Além disso, a riqueza líquida das famílias (a diferença entre seu patrimônio e sua dívida) era ainda inferior no fim de maio em cerca de 20% em termos reais, seu nível do início da recessão, segundo o estudo do banco central americano.
O medo é um só: que Obama só tenha uma saída para isso: reverter sua política exterior. E adotar o “wargasm”, tão típico dos republicanos: o orgasmo pela movimentação da máquina de guerra.
Incautos vêem no babalaô de Obama o mesmo suelto que viam no Francis Fukuyama, o republicano, que sacaneando Hegel, só no sapatinho, anunciou que o “reaganomics”, o “thatcherismo”, em 1989, configuravam o “fim da história”. Obviamente a história não acabou no modelo neoliberal. Nem tampouco acabará no modelo groucho-marxista. História é fricção, notava Benedetto Croce. Naturalmente, os spin doctors do Departamento de Estado dos EUA, sob George W. Bush, e sob Bush “père”, aproveitaram-se do discurso marxo-católico que previa o fim da história. Seja o Sermão da Montanha, de Jesus Cristo (com o babalaô de que ricos não entrarão no reino dos céus), seja o Manifesto do Partido Comunista, publicado por Marx e Engels em fevereiro de 1848, todos postulam o fim da história: a cascata do Manifesto, de ser feliz, trabalhar pouco e “pescar a tardinha”, é a mesma do congelamento da história proposto pelo talibanato (o encontro do profeta no Paraíso, com leite e 80 mil virgens...) ou o arrebatamento que separará o joio do trigo. Todos são, noto, postulantes de um estado de bem-aventurança. E temem a fricção interminável que e a história. Eis o porquê, ao contrário do que previu Marx, de as revoluções comunas não ocorreram primeiramente na Alemanha ou Inglaterra, mas em países essencialmente cristãos: o padre comuna, de chinelo de dedo, é um subproduto do credo no fim da história.
Obama, e óbvio, puxou a sim esse discurso, de que um afro-americano progressista no poder seria o fim da fricção, o fim da história. Esse lero-lero de fim de ideologia não é novidade. O termo, originalmente, foi criado por Albert Camus. Gerou "n" obras, dos anos 1950 para cá: O Deus que Falhou, de R. H. Crossman (com textos de Koestler, Silone, Gide, entre outros); um punhado de ensaios de Arthur Koestler e Ignazio Silone, o famoso O Ópio dos Intelectuais, de Raymond Aaron e, last but not least,The End of Ideology on the exhaustion of Political Ideas in the Fifties, de Daniel Bell, lançado em 1960 em primeira edição e relançado pela Harvard Uviversity Press (Bell batei as botas em janeiro passado).
O problema é que, hoje, avançou a interpretação do fim das ideologias, que ora ganha o status de perda de sentido, de irracionalismo, sobre o que há o belíssimo extrato de Sérgio Paulo Rouanet:
"Não podemos falar em clima irracionalista sem falar em atores que o defendam ou em suportes que o sustentem. Um tanto impressionisticamente, diríamos que esses suportes incluem, por exemplo, subculturas jovens, em que o rock funciona como instrumento de sociabilidade intragrupal e de contestação geracional do sistema. Nelas, os estereótipos de uma formação livresca são contrapostos a imagem da educação pela própria vida. Reconstitui-se, espontaneamente, sem que os jovens saibam disso, a polarização clássica entre a vida e a teoria, que floresceu, por exemplo, no Sturm und Drang, no romantismo, no atual movimento ecologista e em outras correntes direta ou indiretamente influenciadas pela máxima de Goethe “cinzenta é toda teoria, e verde apenas a árvore esplêndida da vida”. Incluem também alguns intelectuais, que não hesitam em desqualificar a razão, de modo quase sempre indireto, sob a influência de certos modismos, como a atual vaga neonietszchiana. E incluem determinados movimentos e partidos políticos, que tendem a recusar a teoria e fetichizar a prática. Teríamos assim, do ponto de vista dos atores, algo como um irracionalismo comportamental, um irracionalismo teórico e um irracionalismo político".
Poderia-se ainda teorizar o tema naquilo que Nietzsche chamava deketten-denken, ou pensador em cadeia, o que serve para todo aquele que adapta, à sua maneira, qualquer estrato ideológico perdido por aí (ver aforisma 376 de Humano, Demasiadamente Humano). Os estrategos do Depto. de Estado, e demais think-tanks dos EUA, sabem bem como serem “deketten-denken”: o lance de que Obama é o fim da história, com seu arranjo essencialmente “pax universalis” é meia-confecção, um arremedo, do que os republicanos tentaram aplicar à sua economia de guerra.
Ao contrário da mansuetude proposta por Obama, o mundo friccional requer a guerra. Tudo porque (o termo é retirado do Manifesto do Partido Comunista) vivemos de “procura e oferta [Nachfrage und Zufuhr]”. Sem guerra, não há mercado, vindica o “dictum” republicano. É o que de resto Nietzsche chamada de “Guerra e Arte” (“otium et bellum”).
O quadro não seria melhor para a volta do “wargasm”, até pela movimentação da indústria de informações digitais. Vejamos a obra Le bonheur economique, de Francois-Xavier Chevallier (Albin Michel, 1998, Paris). Ele nos conta coisas nada animadoras, com base nas teorias dos "ciclos", do economista russo Kondratieff. Para o economista, avanço tecnológico e redução de tempo de produção resultam guerras e instabilidades bem localizadas – para lastrear a produção encalhada pela redução de seu tempo de manufatura. Nessa visão, a Revolução Industrial teria gerado, a partir de 1783, e seguindo o economista, o crack na Bolsa de Londres e a Revolução de 1830. A introdução da química do ferro, a partir de 1837, deu empuxo à Revolução de 1848, à Guerra de Secessão nos EUA e ao crack de Viena. A química pesada, no início do século, teria potencializado e gerado a Primeira Guerra Mundial, o crack de 1929 em Nova York e a Revolução de 1930, no Brasil.
Quando invadiu-se o Kossovo, em abril de 1999, para tirar-se da mídia o escândalo Monica Lewinski (a tese e do brilhante jornalista Phillip Knightley, autor de First Casualty), a então secretaria de estado dos EUA, Madeleine Allbrigth, comemorou que a antiga Iugoslávia seria um ótimo mercado para se escoar a produção dos EUA...Hosni Mubarak e Muamar Khadaffi serviram aos EUA dentro daquela ótica pela qual o ex-presidente Roosevelt definia o ditador nicaraguense como “um filho da puta, mas o nosso filho da puta”.
Será muito difícil que Obama resista ao chamado da guerra. Resta saber qual o novo inimigo que vão nos entuchar goela abaixo.

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