segunda-feira, 25 de julho de 2011

UM SONETO DE FERREIRA GULLAR - João Filho PDF Imprimir E-mail
Dom, 24 de Julho de 2011 11:47



5

Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a na catástrofe da aurora,
e na fonte e no muro onde sua face,


entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitária nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se me temesse ou me odiasse.


Assim persigo-a, lúcido e demente.
Se por detrás da tarde transparente
seus pés vislumbro, logo nos desvãos


das nuvens fogem, luminosos e ágeis!
Vocabulário e corpo — deuses frágeis —
eu colho a ausência que me queima as mãos.



O soneto acima está no livro A luta corporal, cuja primeira edição é de 1954 e, segundo Manuel Bandeira, figura entre os mais belos da Língua Portuguesa, incluído por ele em uma antologia de sonetos. Difícil discordar. O tema metalinguístico deste soneto não se prende àquele vazio tautológico, que é, penso, falta de assunto crônico de uma parte da poesia brasileira do século XX e início do XXI.


O poema que reflete sobre a própria poesia — e todas as variações caleidoscópicas nesse sentido — quando ocupa um lugar eminente no fazer literário de um país ou época, não é porque os outros assuntos se esgotaram ou são menores e desimportantes — em arte assunto não se esgota, tampouco há assunto desimportante, muda-se a perspectiva, o modelo etc., não estamos falando de hierarquias, então... —, mas, sim, porque a arte pela arte, isto é, o esteticismo, contaminou mais do que devia a cabeça e o espírito dos artífices. Ou é, como aponta Mario Vieira de Mello em Desenvolvimento e cultura, parte intrínseca da índole tupiniquim e que influencia nossa visão de mundo? Esteticismo é entrar em um pseudolabirinto autocriado. Um narciso feio se afogando sem espelho, as espirais no vácuo, não apenas fechado em si mesmo, mas estéril, como se o texto omitisse o mundo. Coisa que não ocorre com esse soneto.


A promessa da posse da linguagem poética parece não se realizar, mas o sujeito poético é compensado pelo fracasso, apesar da cegueira conjunta; a perseguição bipolar entre lucidez e loucura, aquele triz de captura sempre escapando; essa angústia consolada por nova abordagem linguística, contudo, a essência da linguagem jamais é aprisionada. De modo geral, essa busca do poeta denuncia um problema clássico em filosofia, que é a teoria do conhecimento. Como conhecer o objeto? Como captá-lo em sua essência, já que ele é incapturável por excelência? Em poesia, muitas vezes, essa sensação é de uma plenitude angustiada e frustrante. Para a experiência humana toda plenitude é provisória, ela existe, mas somente acontece num átimo. Faço uma ponte, apenas como ilustração, com um trecho d’O prólogo de Le vrai Le vain, de Bruno Tolentino, que está no livro O mundo como idéia: [...] E às vezes/pareceu-me que esse exercício/pousava seguro no vento/para além de todo artifício,/com modos de cume ou de febre. É, praticamente, a mesma temática do soneto de Ferreira Gullar, os dois poetas se deparam com a impossibilidade de encarcerar o sopro das Musas, pois para o poeta carioca pareceu que a linguagem poética se realizava de modo tão intenso e real como algo possível de ser tocado, como se dissesse: “eis aqui a forma ocupando lugar no espaço e que lhes ofereço materialmente”; apesar de ele não negar a base instável desse pouso (vento), e a sensibilidade traiçoeira dos momentos extremados (cume, febre) no momento em que o evento ocorreu. Tão pleno que prescindiria até mesmo do código linguístico utilizado [...] para além de todo artifício [...]. Esse impasse não é típico somente da poesia, mas é próprio da criação artística.


No verso do soneto de Gullar [...]embora/ela me redimisse[...] o vocábulo redimir, remir também possibilita a conotação de adquirir novamente, daí a leitura de consolo, compensação, que fiz. A caça acossada, a linguagem, redime o eu lírico com novas visitas, mas são visitas cegas. Ver não vendo, ter não tendo. Por mais concreta e materialista que seja a temática da poesia brasileira do século XX e início do XXI, quase sempre imanente, a linguagem poética ou não, é uma construção do espírito humano calcada essencialmente no invisível. O que é o símbolo, signo e seus congêneres senão abstrações encarnadas?


As metáforas com teor surrealizante — [...] catástrofe da aurora [...]; seus pés vislumbro,/ logo nos desvão/das nuvens fogem [...]; colho a ausência que me queima as mãos — conferem ao poema uma finesse imagética formidável, e, juntamente com a fluidez propiciada pelo enjambement, quebra o que poderia soar como um soneto clássico. Clássico não no sentido dado pelos historiadores e teóricos da literatura, mas no de anacronismo engessado, como alguém sonetar hoje à moda de Camões e crer que ao emular o mestre tornar-se-á atemporal. É necessário um cuidado redobrado ao fazer uso das formas fixas nos tempos atuais, pois se corre o perigo do natimortismo. Fenômeno comum em uma parte das letras brasileiras. Obviedades necessárias: forma não é rigidez, apesar de fixar limites, forma é liberdade. Como único exemplo penso em Abgar Renault e nos seus Sonetos antigos, de 1923, não se deixa afetar pelo natimortismo, mesmo tendo utilizado uma grafia aproximada da época do bardo português.


Nos dois quartetos desse soneto decassílabo, mas utilizando também o verso sáfico (mais exatamente no 6ª, 12ª e 14ª) há uma sensualidade feminina — o gênero é claro no primeiro verso: possuí-la — e nos remete à posse amorosa da mulher amada. Assim, podemos lê-lo também como um poema de amor, intelectual, é verdade, porém a dona, a fêmea, a amada é a linguagem. O objeto do desejo é percebido, descrito, até mesmo desfrutado, mas impossível de ser aprisionado.


O poeta trabalha com imagens representando o abstrato: aurora, água, e contrapõe com outras, digamos, mais concretas: fonte, muro. Esse dualismo é coroado exemplarmente no par de imagens do 13º verso [...] Vocabulário e corpo [...] e somente neste penúltimo verso o poeta nomeia claramente seu tema, na belíssima antítese final. Não obstante a imaterialidade da caça do poeta, ele limita-se ao campo da imanência, não verticaliza nada, seu espaço de ação é horizontal, pois transcender é estar fora, passar além.


O produto dessa colheita é nada, mas é um nada ardente. Negativo? Talvez. A beleza se realiza também por essa via.

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