sexta-feira, 21 de abril de 2017

BALEIA AZUL. O PRÊMIO É A SUA MORTE






 


                                                                       
Um grupo de rede social. Um curador. Cinquenta tarefas. Uma por dia. Bem-vindo à Baleia Azul, um jogo cujo objetivo é a morte. A sua.
Adolescentes já têm histórias para contar. Todo mundo conhece um primo do vizinho do amigo que entrou no jogo. Que se cortou. Que está cumprindo as tarefas. Que está angustiado. Morrendo de medo. Sem coragem de voltar atrás.
Interessante é o medo de sair do jogo e morrer. Porque morrer é exatamente o que vai acontecer ficando também. Já ouvi relatos de que a família é ameaçada. E, por isso, os meninos se veem sem saída. Continuam para preservar quem eles amam.
Pais estão de cabelo em pé com essa nova ameaça. Não é para menos. O jogo funciona à base de pressão emocional. E ameaças à vida do participante e de sua família.
Quer entender melhor a dinâmica do jogo?
1- Um curador
O curador, no dicionário, é uma pessoa responsável por cuidar de um menor ou de alguém que esteja ausente de suas obrigações. Explicando: o curador entra no lugar dos pais que estão omissos. Ausentes. Incapazes de cuidar. Que, mesmo perto, se distanciaram tanto que já não sabem o que se passa.
A incapacidade de ser pai passa também pela incapacidade de dar limites. Dizer não. Botar ordem na casa. Mostrar quem manda. Hoje em dia, em muitas casas, quem manda é a criança. Ela come o que quer, na hora que quer.
Assiste o que ela escolhe. Independente de ser adequado a ela ou não. Só faz o que tem vontade. Dorme de madrugada. Ou não dorme.
Pais têm medo de frustrar os filhos. Têm medo da raiva deles. De não serem mais amados, se contrariarem os pequenos ditadores que criam. E as crianças vão crescendo moles, sem formas. Numa angústia de quem tudo quer. E no orgulho de quem acha que tudo pode.
A falta de educação é um tipo de abandono. O abandono de quem teve filho, mas não tem saco de ter trabalho. Ou não quer enfrentar raivas e birras. Então cede. Ceder é mais fácil.
As crianças e os adolescentes muitas vezes sofrem com a falta de um olhar mais afetivo. De um abraço. De uma conversa que não seja para criticar ou dar ordens.
Todo mundo precisa ser olhado. Faz parte da necessidade humana mais básica. A mais primária de todas. Mas, infelizmente, nosso olhar se perde na tela do celular, do laptop. Na carga excessiva de trabalho. No desgaste do dia a dia. E os filhos acabam sendo colocados em segundo plano. Cada um isolado em seu quarto.
O que fazem no quarto? Você sabe? Tem ideia? Já tentou descobrir? Meninos abandonados de olhar costumam fazer muitas besteiras. Por exemplo, o que é um nudes? Senão a vontade de ser olhado? Mesmo da pior forma possível? Correndo o risco de viralizar na rede e ser ridicularizado. Importa ser olhado. Do jeito que for possível.
Esse olhar que falta em casa, é o que o curador oferece. Mas o curador é mau. Sádico. Obriga a pessoa a se mutilar. Isso é horrível. É.
É horrível. Mas é um olhar. Muitas vezes, o único que o adolescente conseguiu obter. O olhar que lhe dá a sensação de estar vivo. Mesmo caminhando para a morte. De estar agradando a alguém. Mesmo que o resultado seja contra ele mesmo. Ele arranjou alguém que escute. Que se importe. Para o mal. Uma relação sadomasoquista. Mas é uma relação.
2- Cinquenta tarefas
Crianças e adolescentes precisam de ordens, tarefas, limites. Mas acontece dos pais não darem. Pais que acham que precisam ser só muito legais. Acham que não precisam cobrar. Dizer não. Fazer com que se esforcem.
- Ah, coitadinho.
Muitos costumam falar. E seguem facilitando a vida dos pequenos. Grande ilusão. A vida não é fácil. A vida fácil demais perde o formato. Vira vácuo. Vida requer esforço. É o esforço que fortalece. Como o voo fortalece a asa do filhote que precisa aprender a voar.
O limite, a tarefa, o olhar, eis o que dá estofo. Recheio. Raiz para dias de ventania. Tronco forte para os embates e a frustração. Eis o que dá gosto à vida.
Na falta de pais que imponham suas regras, e lhes deem forma, os adolescentes se entregam ao curador. Pessoa que vai fazer o que os pais não fizeram. Pais fariam para o bem. Porque amam.
Curadores fazem pelo mal. Pelo prazer de assistir o prazer que exercem sobre os outros. Porque se deliciam com a humilhação que proporcionam. Sem pena. Sem culpa. Psicopatas perigosíssimos.
As tarefas são ruins. Perigosas. Mas ali, atrás delas, está uma pessoa que cobra. Que exige. Que quer resultados. Quando os pais falham, o curador assume. Veja o estrago feito.
As tarefas são cinquenta. Incluem mutilação de partes do corpo. Filmes de terror. Atividades de madrugada. Entre outras coisas. Como pais que cobram resultados, os curadores exigem a postagem do resultado de cada tarefa executada.
Existe a tarefa. A cobrança. O ego infla, iludido com a ilusão de poder. De vitória.
- Viu? Eu consigo. Eu sou valente. Corajoso.
E o adolescente que se via um perdedor. Um fracassado, agora se fortalece com a realização de atividades arriscadas.
Cinquenta dias se passam. Cada dia com sua esquisitice. E ninguém nota? Onde está o olhar dessa família? Onde está a proximidade?
Minha impressão é de que o adolescente faz cada tarefa e espera ser descoberto. Como que diz:
- Você me vê? Vem ver a merda que eu fiz. Olha para mim. Está vendo o que eu estou fazendo?
Cinquenta chances de ser descoberto e salvo. Mas ninguém nota. É a constatação da solidão absoluta. Cinquenta dias e nada? Abra o olho!
Há pedidos de socorro que são mudos. Silenciosos. Sem uma palavra. Só o sofrimento estampado em algum lugar. É preciso saber socorrer. Enxergar. Ficar perto. Olhar no olho.
A gente está abrindo mão de ser pais. De ditar regras. De ensinar a ser gente. E, sem perceber, jogando as crianças nas mãos dos monstros mais cruéis. Não pode tudo. Não pode viver na ilusão de uma vida sem dificuldades. É irreal e angustiante. Desprepara. Enfraquece.
Sou da época do:
- Não é não!
- Você não é todo mundo.
- Já falei. Pronto. Acabou.
Em que só o olhar do meu pai já me bastava. E sobrevivi. Não sobrevivi? O não fortalece a alma. Faz a gente crescer.
O que leva nossos meninos a buscar a morte? Não é qualquer adolescente que entra numa furada dessas. Entram os que têm baixa autoestima. Os que se sentem fragilizados. Os que apresentam vínculos familiares frouxos. Enfim, resumindo, os que precisam de ajuda.
E, é preciso que se diga, quando um adolescente precisa de ajuda, a família precisa também. Vejo no consultório. É todo o grupo que precisa ser ouvido. E atendido. Acolhido. Sem críticas. Sem dedo apontado. Porque ser pai, mãe é difícil. E a gente faz o melhor que pode. Sempre.
Outro item que me chama a atenção é a solidão do adolescente que, só, se isola e se recusa a buscar ajuda. É comum adolescentes se fecharem em copas. Não contarem o que estão passando. Na ilusão de que vão resolver. Não resolvem.
Adolescentes são como ursos em cavernas. Hibernam lá dentro. Aparecem para buscar comida. Dão uns grunhidos em resposta ao que a gente fala.
- Ounhf
Você não entende bem. E eles respondem fazendo um grande favor. Então pode ser que coisas aconteçam e a gente não note. Mas é preciso entrar na caverna. Sentar por ali. Mesmo com as reclamações:
- Ih, mãe! Vai ficar aí?
Diga que vai. Insista. Não se afaste rejeitada. Fique. Ursos também gostam de carinho.
Filhos se retraem nas dificuldades. Medo de procurar ajuda. O problema aumenta como bola de neve. E eles vão afundando como quem some em areia movediça.
O adolescente que está sofrendo muda. Qualquer pessoa muda. Ele pode apresentar mudanças na escola, no sono, no apetite. Pode se isolar. Evitar contato.
As mutilações no corpo podem fazer com que ele passe a usar manga comprida, mesmo num calor de porta de inferno. Fique perto. Mostre interesse.
Escute sua dor. Permita que ele se abra. Mesmo que doa ainda mais em você. Porque dói. A família é fortaleza. É telhado. É ninho. Um espaço familiar acolhedor dá segurança ao adolescente. Fortalece a autoestima. Faz com que ele se sinta acolhido em seu sofrimento.
Muitas vezes é à escola que vai caber esse apoio. Quando a solidão é tanta que a família não enxerga, a escola pode ser a última tábua de salvação. Um bom professor pode salvar uma vida.
Não critique. Escute. Qualquer um pode cair numa armadilha. Elas são armadas para isso mesmo. Mostre que está do lado dele. Para o que der e vier. E que juntos vocês são mais fortes do que qualquer baleia. Juntos vocês são o próprio Rei Tritão.
Escreva contando sua história. Mande sua sugestão para elbayehmonic@yahoo.com.br
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