quarta-feira, 14 de maio de 2014

FLASHBACK DE UMA VIDA

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FLASHBACK* DE UMA VIDA

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5 de Julho de 1964. Estação de Santa Apolónia, em Lisboa. O ar estava irrespirável de tanto calor. Um jovem de aspecto franzino, alto para a estatura média dos portugueses de então, com um ar de provinciano a viver na capital, desce do táxi que o trouxera da casa de uma tia onde vivera durante os anos que estudara em Lisboa e dirige-se à gare de embarque. Ele que, durante os anos que estudara em Lisboa e vivera parcialmente fora da casa dos pais, na distante cidade de Castelo Branco, a Albicastro capital da Beira Baixa, tantas e tantas vezes fizera o percurso de combóio entre esta cidade e a capital, naquelas velhas carruagens de bancos de madeira, puxadas por cansadas máquinas a vapor que, nas subidas de Vila Velha de Ródão, após terem atravessado o Tejo, se esfalfavam por chegar lá acima (pouca-terra-pouca-terra- pouca-terra), enchendo de fuligem a cara e a roupa de quem tivesse a curiosidade de assomar à janela, olhava estupefacto as carruagens do Sud-Express. E a locomotiva !!! Essa, então, era mesmo algo de irreal. Não era como as da Linha da Beira Baixa, decrépitas e a trabalhar a carvão (pouca-terra-pouca-terra- pouca-terra). Era uma senhora locomotiva a diesel com cheiro de nova ! Que luxo !

E o jovem lá embarcou. Um dia e meio a passo de diligência, paragens em todas as estações e apeadeiros, o calor abrasador na travessia de Espanha e toda aquela gente muito palavrosa, o ambiente sombrio. Mas, para o jovem, é inesquecível o alívio enquanto passava a fronteira. “Lá ficou a piolheira”, pensou. A noite chegou. Os mais afortunados, quer dizer os de carteira mais recheada, tinham reservado uma cama no vagão-cama. O jovem lá se ia aconchegando no banco forrado a napa, mas o ‘entra-e-sai’ de ‘nuestros hermanos’ não o deixavam sossegar. O que lhe valeu, foi a agradável companhia de uma mocetona do arrabaldes da ‘Invicta’ que regressava a França após umas merecidas férias na sua terra natal e que embarcara no Entroncamento. E lá foram falando e mastigando as sandes que trouxeram das suas terras para matarem a fome pelo caminho. Que os mais afortunados, esses iam jantar ao vagão-restaurante.

Já perto da madrugada, finalmente chega-se a Hendaia, a fronteira franco-espanhola. Mudança de combóio, pois a bitola da linha férrea era diferente da que Portugal e Espanha tinham. Do lado francês, o comboio era outro, mais veloz. Mesmo assim demorou mais de meio dia a chegar a Paris. Já a tarde ia a meio quando, finalmente, se ouve o grito do revisor do combóio : Gare du Sud !!!! Estação terminal. E o jovem, após uma rápida despedida da sua companheira de viagem, lá foi à procura de um táxi que o levasse à outra estação de Paris, a Gare de Austerlitz. Era aí que tomaria o combóio que o levaria a Munique, na Alemanha. Seriam para cima de 800 quilómetros ainda a percorrer. E mais umas larguíssimas horas de espera, pois o próximo combóio para a capital bávara só sairia pela manhã do dia seguinte. Mais uma noite mal dormida num banco da estação. Felizmente, a sua bagagem era pouca. Não seria bem a famosa mala de cartão tão bem cantada pela Linda de Suza (Duas malas de cartão numa terra de França, um Português deixou assim seu Portugal.

Como tantos outros, ele não perdeu a esperança, o Português que deixou seu Portugal), pois o jovem tivera a sorte de um seu amigo e ex-colega de liceu, então na Academia Militar, lhe ter emprestado um saco de viagem militar. Já o sol tinha passado o seu ponto mais alto, quando, finalmente, ele tinha Munique à vista. Aquilo, sim, era outro mundo ! Aquela estação ‘Hauptbahnhof’ era impressionante e, ao mesmo tempo, assustadora. O jovem sentiu-se tão pequenino que a sua vontade era voltar para casa. Voltar para os braços de sua mãe. ‘Cheguei ao fundo da estrada, Duas léguas de nada, Não sei que força me mantém. É tão cinzenta a Alemanha E a saudade tamanha, E o verão nunca mais vem. Quero ir para casa, Embarcar num golpe de asa, Pisar a terra em brasa, Que a noite já aí vem. Quero voltar Para os braços da minha mãe, Quero voltar Para os braços da minha mãe.’ Até parece que o bardo Pedro Abrunhosa encarnara aquele jovem naquele dia de Julho de 1964. Bem, mas a missão estava bem definida e um carneiro não tem medo nem volta atrás. Sai da estação e, na rua, começa a tentar colocar em prática os seus conhecimentos da língua alemã. Afinal, já tinham sido uns anitos em Germânicas na Faculdade de Letras e simultaneamente na Escola Superior de Tradutores e Intérpretes do I.S.L.A. O pior é que aqueles danados ‘sauerkraut’ falavam um alemão arrevesado totalmente diferente daquele que os professores lhe tinham ensinado em Lisboa. Quem teria inventado aquele maldito dialecto a que aqueles baixotes barrigudos de calças de couro tirolesas (Lederhosen) chamavam ‘Boirisch’ em vez de dizerem ‘Bayerisch’ ? Bem, com a ajuda de alguma linguagem gestual, o jovem lá conseguiu que lhe explicassem qual a carreira de eléctrico a apanhar para chegar ao Jugendheberg (albergue de juventude). De novo o pensamento ‘quero voltar para os braços da minha mãe’. Mas o jovem lembrou-se que era ariano e que um carneiro é forte e nunca desiste. E lá seguiu viagem no eléctrico (Strassenbahn) até ao Jugendherberg.

Três noites foram ali passadas (era o máximo de permanência nos albergues de juventude) e os dias aproveitados para arranjar alojamento para o futuro próximo. E, fazendo jus dos genes lusitanos do ‘desenrascanço’, o jovem lá conseguiu negociar a estadia num lar de estudantes no bairro de Schwabing, o equivalente monaguesco ao Quartier Latin de Paris, um bairro de estudantes, artistas e boémios. Mas só durante as férias escolares de um mês, pois o lar não tinha vagas e ele apenas conseguira um género de sub-aluguer. E aí estava o jovem na ‘Weltstadt mit Herz’, a metrópole com coração.

E o tempo foi passando e o jovem, que trouxera um pouco de terra cheirando a pinheiro e a serra, não via pombas voando no beiral, mas fez sete anos no chão, andou nas noites de Amesterdão, comprou amor pelo jornal, quis ir para casa, embarcar num golpe de asa, pisar a terra em brasa, que a noite já vinha. E, volta não volta, ele queria voltar para os braços de sua mãe, para os braços de sua mãe…. Ele veio em passo de bala, um diploma na mala, deixara o seu amor para trás, passara tanto frio em Paris, já era memória e raiz, saira de onde tinha paz. E Munique, a Alemanha e tantos outros lugares foram durante anos a sua ‘Gaiola Dourada’.

Um dia, eu deixei o meu lar e parti
Fui procurar coisas que eu nunca perdi
No mundo ingrato que eu não conhecia
Minha mãe me pediu para que eu não saísse
Mas eu não dei ouvidos ao que ela disse
E levei tudo o pouco que me pertencia
Enquanto pela porta fora eu saía
Enquanto minha mãe chorava e sofria

Aquela geração que partiu nos anos 60 e 70 são os últimos que, verdadeiramente, amam Portugal. Bem mais que todos os outros. O corpo partiu, a alma ficou nas suas aldeias. Trabalharam de sol a sol, onze meses de sacrifício para um mês em que o corpo regressa à alma. Tão diferente do que se passa hoje. Tão diferente…
Hoje partem de corpo e alma. Uma nova geração. Partem com a dor de um país que os desiludiu.

Ontem partiam com a esperança de uma vida melhor. Hoje partem com a frustração de terem perdido a esperança neste país. Ontem partiam ‘a salto’ e regressavam ao volante do último grito de automóvel. Hoje partem na Ryanair e regressam quando calha. Sempre com aquela coisa estranha e muito nossa, a saudade.


Agora cruzam-se nesses aeroportos os netos da geração de 60 com os filhos das gerações de 80/90. Os primeiros, para conhecer aquele estranho país dos seus avós. Os segundos, para tentar resgatar as suas vidas. Não parecendo, a diferença é enorme. Excepto numa coisa: Portugal continua adiado para uma parte cada vez mais significativa dos seus.

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