sábado, 24 de junho de 2017

A MORTE NA VISÃO FILOSÓFICA

A MORTE NA VISÃO FILOSÓFICA

 02/08/2014

A morte humana é um dos problemas da existência bastante examinado pelos filósofos devido às questões inerentes a tema tão polêmico. A finitude ou a infinitude humana reelabora conceitos, comportamentos, valores e culturas. O homem como ser dotado de consciência é que é capaz de inferir seus questionamentos, e até abandonar o problema existencial da morte quando lhe for propício. Não há na minha análise julgamentos, mas a necessidade de estudar o tema mais verticalmente para que a vida hoje seja revisionada também.
A morte humana assim como a própria vida é um dos temas mais polêmicos da existência, pois a morte é a própria dialética do atemporal com o temporal, o próprio ser da temporalidade, das mitologias, retomando e realocando sociedades e culturas.
Segundo Batista Mondin algumas questões relativas à morte são de cunho universalista como:
- o fato incontestável de que o homem morre biologicamente.
- que esse é um acontecimento que diz respeito a um ser dotado de autoconsciência, auto transcendência, espiritualidade, substância na ordem do espírito e responsabilidade.
- que, não obstante, mas falte uma experiência da morte quando dela falamos, ela não foge completamente ao nosso conhecimento. Da morte de fato temos uma dupla consciência indireta: a primeira, a visão dos outros que morre; a segunda é a consciência de que a vida é uma progressiva sujeição à morte.
Na linguagem da biologia molecular a morte é definida como a dissolução da estruturação molecular necessária para o fenômeno da vida. Filosoficamente, as visões dos variados filósofos, as singularidades de cada filosofia, refletem bem as leituras distintas para o mesmo fenômeno.
A morte é perda, mas também ganho, a morte como a vida e na vida resignifica a própria vida. A morte está viva quando é sentida, quando solicitada pelas consciências que muitas vezes se mortificam nos seus mergulhos de angústia na existência sem definições objetivas. O subjetivismo se torna permissivo quando se emprega ao fenômeno o fim da vida para que os ainda estão na atividade do viver. Montaigne tem um pensamento bastante peculiar sobre o fenômeno da morte:
“ninguém morre antes da hora. O tempo que perdeis não vos pertence mais do que procedeu o vosso nascimento, e não vos interessa: considerai com verdade que os séculos inumeráveis, já tornados, sóis para vós como se não tivessem sido. Qualquer que seja a duração de sua vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração e sim no emprego que lhe dais. Há quem vive muito e não viveu e meditai sobre isso enquanto o podes fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, todos vividos bastante imagináveis então nunca chegardes ao ponto para o qual vos dirigíeis? Haverá caminho que não tenha fim.”
O fenômeno da morte penetrou em diversos segmentos do conhecimento. As religiões criaram formas diversificadas de leituras e com as suas formas fecharam ciclos e abriram outros, dogmatizaram, pois assim seria mais apropriado para uma aceitação mais generalizada. Diante das sistemáticas que cada religião estruturou seus mitos e ritos, a morte recebe sempre um caráter de responsabilidade perante a vida e seus atos, concomitante às promessas da além-vida.
Certo é que o homem quando se rejeita é a morte numa de suas figurações, adere ao não viver por uma série de ideias internalizadas de que o melhor é negar a vida para ter algum prêmio a posteriori. Os sentimentos de ansiedade, de angústia quando tomam o indivíduo simbolizam em cada ser a própria morte personificada. As insatisfações de conviver com sua finitude leva o homem a buscar esferas outras para amenizar tal condição, assim muitos adentram nas religiões, nas filosofias e até na psicanálise.
O apego às elaborações religiosas, filosóficas e outras, permitem ao ator social a busca pela infinitude, explicações metafísicas, transcendentais, sobrenaturais, experimentações do sagrado elencam perspectivas da continuidade, trazendo alento para muitos.
A morte desafia a própria epistemologia, pois é ininteligível, alicerça-se em montanhas tão altas para os pequenos ainda alcances da inteligência humana. Restam-nos elucubrações e mais elucubrações nas tentativas de explicar fenômeno tal significativo para a raça humana.
O conhecimento adequado para o exame da morte nas histórias do povo nos mostra que a forma de relação de determinada sociedade com essa questão baseia-se na estruturação dos valores presentes na própria vida, ou seja, a forma de enfrentamento a esta realidade refere-se à forma de que se vive. Entendemos assim se há culto, por exemplo, aos ancestrais em vida, a forma de encarar a morte tem total ligação com tal episódio.
Até certo ponto morte e vida são complementares, é a dialética existencial. A vida uma realidade que vamos decifrando diante de várias outras realidades existentes em moldes culturais diferenciados e a morte, como realidade particular da vida, e ao mesmo tempo com realidade própria, pois tem vida própria. A impossibilidade de desvendamento da morte faz da morte uma realidade singular. Sendo assim não existe vida sem morte e morte sem vida: conjunção par e ímpar.
Reinholdo Aloysio Ullmann nos informa que o homem primitivo já possuía uma mentalidade metafísica própria, a qual era, como hoje o é cômoda, constantemente pela necessidade de sobrevivência, pela natureza circundante, com suas manifestações de raios através das tempestades, mudanças estacionais e de forma especial, pelos mistérios fincados na vida e na morte de semelhante. Em suma a inquietude metafísica nasceu com o homem mormente em face da morte. O não-estar-mais aí, no entanto, é encarado como um modo positivo de ser; o morto ainda pertence ao círculo de sua vida, apenas vive em condições modificadas, em outro lugar. Devemos ressalvar, no entanto, a vastidão interpretativa desta outra realidade nas sociedades ágrafas e a complexidade inerente em todos os seus contextos. O lidar com a morte de forma natural não o exime de sentimentos, de reflexões.
Elucubrar sobre a morte é entrar sim num complexo confronto com nós mesmos. Primeiro o enfrentamento dos nossos próprios temores e cônscios de que a morte é um grande tabu. Os filósofos como têm uma grande preocupação em desvendar os mistérios da vida, analisam a questão no decorrer da própria história da filosofia. Atenta-se o fato de que os filósofos colidem e divergem nas suas posições sobre a morte, o que apenas confirma a polêmica temática proposta de estudo.
A morte humana tornou-se um problema equivalente à própria vida; um filósofo deve ou não aceitar a finitude da existência? Ele que precisamente necessita de objetividade, clareza e dar luz ao mundo como fica diante de um fenômeno obscuro? Seria mais sensato pôr o problema na transcendência? Ainda há a opção de abandonar o problema, o que podia levar à banalização da existência e a morte como realidade singular mesmo assim continuaria existindo, quer se queira ou não. Quem não reflete sobre a morte possivelmente não reflete sobre a vida.
Heidegger, filósofo alemão autor do clássico Ser e Tempo, diz que esquecer do problema é típico do homem inautêntico, o homem autêntico viveria com a busca de concretização dos seus projetos e com a consciência de morte.
A problemática não é fácil de solucionar, pois sabemos que muitas vezes o querer esquecer de nossa temporalidade e de como vamos se manifestar na vida cônscios de tal situação, levam-nos logicamente a um problema ético. Se aceitarmos a morte como continuidade da vida, muitas vezes para nos sentirmos amparados na nossa infinitude, teria sentido claro a ética no nosso viver. Entretanto, se aceitarmos a visão de cunho materialista, que diz que tudo acaba com a morte, muitos padrões éticos poderiam ser abortados. O discurso seria: pra que tantas normas? O caráter normativo ficaria numa corda bamba. A vida caberia na superficialidade, no hedonismo ofuscante de práticas mais humanísticas.
Mesmo assim o problema não se finda quando há a aceitação da continuidade da vida após a morte, pois será que o indivíduo concretamente estaria apto a morrer? Como abandonar a certeza da vida concreta por uma certeza abstrata?
Em alguns momentos da existência, com todos os problemas contidos na mesma, alguns até podem sentir vontade de abandonar a vida, seria mesmo o querer da morte em definitivo? Acredito até que por alguns instantes esse querer possa ser real, mas não duradouro. Geralmente os apegos e as relações traçadas pelo próprio indivíduo o leva a repensar tal atitude, somando ainda o temor do desconhecido, o que abriria a possibilidade de ser melhor ou pior, o que o faz declinar de tal ensejo. É difícil querer morrer verdadeiramente e definitivamente, sendo que estamos apegados as nossas criações e construções humanas, mesmo que elas não sejam as mais satisfatórias e completas, ainda assim são concretas.
As interpretações filosóficas a respeito da morte, visando elucidar o sentido do fenômeno, estiveram presentes de Platão a Kant. Platão, filósofo grego discípulo de outro grego Sócrates, em suas obras obras Fédon e Fedro, argumentou a favor da imortalidade da alma, o seu conhecido mundo das ideias eternas. A alma sentiria necessidade e se alimentava das idéias.
Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e outros pensadores cristãos, agregando o conhecimento intelectivo ao da espiritualidade deles tiraram argumento a favor da imortalidade da alma.
Já Freud, pai da psicanálise, considera a morte como instinto de todo ser vivo, a vida tenderia para a morte.
O alemão Nietzsche, que tem papel relevante na filosofia, propõe a morte como a suprema possibilidade da liberdade humana; na morte, o homem se mostraria vivo no seu alto grau. Para o filósofo a morte possui a imagem da embriaguez dionisíaca.
Já Heidegger percebia na morte a possibilidade para que a vida fosse examinada e sendo assim vivida de forma autêntica.
Sartre, filósofo francês contemporâneo vê na morte a absurdidade da vida humana, a vida seria uma paixão inútil.
O conviver com a consciência da morte poderia nos levar aos rompimentos de várias atitudes medíocres e menores, nos retendo num seguimento de nossas metas de vida, visando ter respeito por tudo que seja construtivo e por todos nas suas diferenças, sem ônus ao coletivo, certo de que o fim estaria a nos esperar.
O homem com certeza não quer falar da morte, ele a detesta, porém até então ele é o único ente capaz de elaborações, a morte é algo vivido consciente ou inconscientemente, um forte elo que o acompanha na sua temporalidade, ele pode aceitá-la, pode suportá-la, pode fazer dela o ato mais importante da sua vida ou o mais insignificante, ele sozinho sabe o que perde com a morte.
É fato que neste mundo já temos algum referencial e tememos perdê-lo, se admitimos a possibilidade transcendente de ser uma passagem , não deixa de ser uma possibilidade desconhecida, o que já não é confortável. A morte retira a autonomia do ser que contribuiria para construção e desconstrução das diversas modalidades de a decodificar enquanto ser existente ao nível material. A questão é taxativa: a morte é real, mesmo que saibamos criar e questionar esta realidade.
No nosso século, quase todos os estudiosos que se defrontaram com o problema filosófico da morte concluíram que há uma impossibilidade de através de provas científicas comprovar a existência da alma, continuando a ser um problema para o âmbito da metafísica. Alguns religiosos discordam da imortalidade da alma e na sua interpretação bíblica argumentam tal fato não ser possível.
É certo que morte é uma situação limite e acaba mesmo que temporariamente, a depender de argumentos, dogmas e crenças de cada um, com as possibilidades de criação e realização

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